sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Galiza e a Lusofonia


Por Carlos Jorge Mota

Aprendemos na História e na Literatura que a Língua Portuguesa é o resultado duma lenta e gradual evolução do galaico-portucalense, língua falada em terra galaica e no Condado Portucalense. Mas houve dois Condados Portucalenses, ou Condados de Portucale: o primeiro, fundado em 868 por Vimara Peres, após a Presúria de Portucale (Porto), e cujo território se situava entre Minho e Douro, incorporado depois, em 1071, no Reino da Galiza, cujo soberano era simultaneamente detentor dos Reinos de Leão e das Astúrias; e o segundo, constituído em 1095, em feudo de Afonso VI, Rei de Galiza-Leão e Castela, e oferecido ao burguinhês Henrique (de Borgonha) que recebeu também a mão de sua filha D. Teresa de Leão. Era constituído também por territórios mais a sul, abrangendo já as áreas de Viseu, de Lamego, de Coimbra e de Idanha.
Os Suevos, povos de origem germânica, chegados à Península Ibérica aquando das Invasões Bárbaras, encabeçados por Hermerico, através dum Pacto de ajuda recíproca (foedus) com os Romanos, formam, no ano de 409, o Reino da Galiza (Gallaecia) cuja capital era Bracara Augusta, a atual Braga. Entretanto, chegados os Alanos, tentam eliminar o Reino Suevo, nomeadamente em lutas na atual cidade do Porto, mas infrutiferamente. Todavia, em 585, os suevos não conseguem resistir aos Visigodos e o seu reino é anexado por estes, que tinham a sua capital em Toledo. A designação de Reino da Galiza cessa só no Séc. XIX, com a dissolução da Junta Superior, por Maria Cristina de Bourbon, entretanto formada para defesa mais eficaz das invasões dos exércitos napoleónicos.
 Com estes pressupostos, historicamente comprovados, é legítimo nos questionarmos sobre qual a língua antigamente falada no território que hoje constitui Portugal. Óbvio que teria que ser o galego – considerando a Gallaecia de então e não a Galiza atual. Consequentemente, o Português não será mais do que um derivado da língua galega.


E os galegos que língua falam? Bom, aqui a questão não é tão linear como as aparências nos sugerem, pela proximidade temporal da época franquista durante a qual, e apesar de Francisco Franco ter nascido em Ferrol, na Galiza, só se admitia a escolaridade da língua oficial espanhola – o castelhano.
Com efeito, considerando o forte fervor de nação galega que perdura desde há muitos, muitíssimos, anos, os galegos assumem-se como faladores do galego de antanho, e não do galego oficial instituído em 1979, que a capital, Madrid, foi obrigada a autorizar, ao ser incorporada na Constituição Espanhola de 1978 a autonomia de Regiões, algumas das quais com o ensinamento da sua língua nativa. Só que esse galego oficial não corresponde ao galego genuíno das gentes galegas. O argumento utilizado foi subtil … supostamente é para mais fácil aprendizagem dessa língua pelos não autóctones, daí a maioria dos termos serem acastelhanizados, logo, aculturados. A política a isso obriga e as verdadeiras razões são facilmente entendíveis.
Só que muitos galegos – e não será um número nada despiciendo -, principalmente os mais ligados às elites culturais, não aceitam passivamente essa situação e reivindicam, por meios legais que consideram legítimos, a necessária correção para a genuína origem da língua e lutam pela não permissão do seu abastardamento.
Daí, porque consideram ser uma via eficaz, terem requerido o Estatuto de Observador junto da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Entretanto, adentro da própria Galiza, constituíram, em 6 de outubro de 2008, a Academia Galega de Língua Portuguesa, e, em 2011, uma Fundação da AGLP. Na cerimónia da constituição da AGLP, em Santiago de Compostela, estiveram presentes na mesa, e fizeram a respetiva intervenção alusiva ao ato, o Prof. José-Martinho Montero Santalha, como anfitrião; José Craveirinha, escritor moçambicano, que aludiu ao facto de, na sua infância em Moçambique, sendo ele filho de português continental, da zona de Abrantes, a sua mãe dizer, com frequência, que ele era um galego como o pai; o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa; o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL; o Prof. Doutor Carlos Reis, da Universidade Aberta de Lisboa; o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.
No fim da cerimónia, foi tocado e cantado o Hino Galego em cuja letra não se refere Galiza, mas sim Nação de Breogán, figura celta mitológica a quem é atribuída a afirmação da nação galega. A ele, Breogán, também se atribui a fundação da cidade transmontana de Bragança.
Em 5 de outubro de 2009, também em Santiago de Compostela, realizou-se o I Seminário de Lexicologia da AGLP, durante o qual foi assinado um Protocolo com a Universidade Aberta de Lisboa e em que intervieram figuras proeminentes da lusofonia, nomeadamente, por parte da AGLP, o seu Presidente, Prof. José-Martinho Montero Santalha, o Vice-Presidente, Prof. Isaac Alonso Estraviz, e, por parte da Universidade Aberta de Lisboa, o seu Reitor, Prof. Doutor Carlos Reis, e o Pró-Reitor, Prof. Doutor Domingos Alves Caeiro. Intervieram também o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa, o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL, a Professora Maria Francisca Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, o Prof. Álvaro Iriarte Sanromán, da Universidade do Minho, o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, o Prof. Adriano Moreira, Vice-Presidente da ACL.
Em 25 de setembro de 2010 realizou-se o II Seminário onde foi figura destacada o Professor Carlos Amaral, Administrador da Priberam Informática SA, que falou sobre a inclusão do Léxico da Galiza nas ferramentas relativas ao uso da língua portuguesa.
Tive já pessoalmente o privilégio de fazer uma intervenção oral, em janeiro deste ano, na Inauguração duma Exposição de lindos painéis alusivos ao Cinquentenário da Fundação de Brasília, capital do Brasil, na Corunha, na Associação Cultural Alexandre Bóveda, figura heróica que pagou com a vida o seu forte galeguismo, “crime” pelo qual foi fuzilado pelas tropas insurretas de Franco.
Em junho último tive também o privilégio de, no acompanhamento dum grupo de escritores brasileiros, ser conduzido por amiguirmãos galegos a Padrón, terra de Rosalia de Castro, e a Rianxo, terra de Castelão, e sermos recebidos pelo respetivo Presidente da Câmara, por coincidência no seu primeiro dia de funções autárquicas.
Fazendo nós uma reflexão sobre as verdadeiras origens da nossa língua, constatamos que a dita pronúncia do norte de Portugal não será mais do que uma maior aproximação às suas origens, de que se destaca algumas trocas de vês por bês (e vice-versa) e a acentuação de om em vez de ão. Mas uma curiosidade ressalta nesta apreciação do om. No Brasil, terra para onde foi transportado o português (algum dele agora arcaico), perduram palavras terminadas em om em vez de ão, de que serve exemplo o termo cupom em vez de cupão (cupom fiscal), tal qual na Galiza de hoje. A letra k pronuncia-se no Brasil , exatamente como os galegos a dizem, enquanto que no resto da lusofonia se fala capa.
Esta diversidade na unidade será, porventura, a maior riqueza duma língua. E não adianta os sulistas procurarem brindar os nortenhos com as brincadeiras da pronúncia do norte, até porque lá, principalmente em Lisboa, há também as suas caraterísticas muito específicas. Serve de exemplo a pronunciação de ô em vez de ou: touro, ouro, mouro; á em vez de ai: baixa, caixa, faixa; ai em vez de ei: feira, tinteiro, madeira; em vez de é: fera, chapéu; e no grave erro gramatical de transformar palavras dissilábicas em monossilábicas: rio, tio, desafio.
Face ao que precede sobre a Galiza e o galego, não estará o título deste artigo invertido? Não seria melhor escrever A Lusofonia e a Galiza?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O galego já é oficial na União Europeia


Por José Manuel Barbosa

Já há mais de dezaoito anos, em 1994, algumas pessoas da AGAL tivemos possibilidade de conhecer o funcionamento do parlamento europeu e experimentarmos “in situ” a situação das diferentes línguas comunitárias graças ao convite à nossa Associação feito pela Coligação Galega(CG) liderada na altura pelo que foi europarlamentar José Posada.
Foi no mês de Março e na semana imediatamente anterior à Semana Santa quando um pequeno grupo de representantes da AGAL entre os que figuravam os amigos Jesus Miguel Conde, Carlos Garrido, atual Secretário da Comissão Linguística, Xavier Paz, José Manuel Aldeia, Laureano Carvalho, Rosário Fernandes Velho e um que isto vos escreve.

 Visitamos Bruxelas e com isto também as instituições europeias, e não vimos surpresa no facto de nos podermos defender no dia-a-dia na nossa língua. Não pelo facto tópico e folclórico de acharmos galegos por toda a parte -facto que nalgum caso se deu- mas porque o galego é conhecido dum ponto de vista académico como uma forma ou variante da língua que a romanística denomina “galego-português” e que internacionalmente se reconhece como “português”
Não são duas línguas, mas uma. Isso foi-nos útil para não nos deixarmos levar por complexos de nenhum jeito e entendermo-nos na nossa língua com a rapariga responsável do hotel no que moramos aqueles dias, sendo ela belga mas casada com um brasileiro. Também não foi surpresa o sermos atendidos por alguns funcionários do parlamento europeu na língua de Rosália na que se nos dirigiram quando nos ouviram falar entre nós, pensando que éramos portugueses (estou seguro que se souberem que éramos cidadaos do Estado Espanhol e galegos provavelmente dirigir-se-iam a nós em castelhano).

A alguém lhe poderia parecer uma surpresa que um companheiro de expedição e representante dum grupo ambientalista da Límia, o nosso amigo Manuel Garcia, apresentasse publicamente e no seu galego limego (ou limião) uma informação sobre a concentração parcelar na sua comarca perante o pleno do grupo parlamentar europeu do "Arco Íris", grupo dentro do qual estava o Eurodeputado Posada. Como bem se sabe, havia, e há umas cabinas de tradução simultânea que transpunham a fala do amigo Manuel Garcia aos diferentes idiomas dos distintos europarlamentares dos diferentes países que integravam aquele grupo. Quiçá ninguém se deu conta de que se isto fosse feito por um catalão ou um basco, ou um escocês...não poderia ter sido feito pelos tradutores porque essas línguas não pertencem ao grupo de línguas oficiais da União...infelizmente....mas é assim, cousa que não acontece com a nossa língua que sim é oficial. Por isso pode ser traduzido às outras línguas comunitárias.

Lembro que havia uma porta-voz escocesa, lembro um corso que interveio e algum flamengo... e todos percebiam perfeitamente o que o nosso companheiro expunha porque os funcionários de tradução reconheciam aquilo como uma das línguas oficiais dum Estado membro..., neste caso, reconheciam-no como português e faziam o seu labor transladando para inglês, francês, neerlandês, etc...
Tanto na altura como ainda hoje a informação que se verte sobre a situação da nossa língua na Galiza não chega a todos os galegos, pelo que é fácil acreditar que ninguém tivesse nem, ainda hoje, tenha muito conhecimento, nem consciência do que é o Informe Killilea, nem das cartas cruzadas entre o europarlamentar Posada e o presidente do Parlamento Egon Klepsch, nas quais se reconhecia o galego implicitamente como língua oficial por sê-lo o português, língua oficial dum dos Estados membros: Portugal.
Egon Klepsch
Essas cartas estão publicadas nas AGÁLIAS dos anos 1993 e 1994 e nelas se toma o assunto por causa da dúvida que alguns funcionários tinham em relação à língua do eurodeputado. Eles diziam que era português com um sotaque que eles não conheciam mas o Senhor Posada clarificou com argumentos históricos e linguísticos que aquilo era a mesma língua de Portugal embora com o sotaque galego das Rias Baixas donde ele é originário. Posteriormente e com a intervenção do europarlamentar irlandês Mark Killilea que reconheceu as variedades linguísticas da U.E. e do próprio presidente do Parlamento reconheceu-se que todas as intervenções do eurodeputado galego foram feitas numa variante da língua conhecida internacionalmente como “português” e portanto recolhidas no diário de sessões da Câmara.
Mark Kilillea
Há um tempo, quando governava o bipartido, víamos nos meios de informação galegos a notícia de a Espanha pedir para o galego o “status” de língua oficial dentro da U.E. e não pôde mais do que olhar a notícia franzindo as sobrancelhas. Veremos no futuro a mesma petição para o valenciano ou o para o andaluz?? Veremos isso para o valão, o francês da Bélgica, ou o alemão da Áustria? Veremos também na ONU essa petição para a língua dos norteamericanos diferenciada da dos britânicos?. Evidentemente a proposta não foi aceite porque dum ponto de vista internacional as falas galegas sempre foram reconhecidas como uma das variantes dessa língua ibero-românica ocidental conhecida historicamente como “galego” ou “galego-português” mas dum ponto de vista político conhecida com o nome de “português”.


Ora bem, estou certo que o flamengos da Bélgica não vão pedir algo assim para o flamengo porque já é oficial o neerlandês, língua comum a holandeses e flamengos, nem a haverão de pedir aos moldavos no momento em que entrarem na União a oficialidade do moldavo quando já dentro achem o romeno como língua oficial por ser a República de Roménia sócia de pleno direito desde 2007.
Já o eurodeputado Posada em 1994 e em 1999, e posteriormente o Camilo Nogueira desde o 1999 até 2004 fizeram o seu trabalho na nossa língua, gerando mesmo reações à contra de conhecidos políticos antigalegos que mesmo chegaram ao insulto. Dentro esses políticos salientamos o ex-alcaide da Crunha, Francisco Vázquez que denominou Camilo Nogueira de Nazi por falar "português" no parlamento europeu e com isso deixar de falar espanhol...
Isto faz que tenhamos a necessidade de dizer por se a nossa gente não se tem inteirado, que a Nossa Língua, a língua que Pondal denominou "Língua do grã Camões, fala de Breogão", a língua das Cantigas do único Império peninsular com Afonso VII e que assim se podia considerar na Idade Média, a língua de Castelão, de Risco, de Carvalho Calero...é já oficial tanto na sua versão lusitana como na sua versão galega, facto este reconhecido pelas instituições comunitárias. Com ela se trabalhou na Europa desde 1986, data na que os países da península Ibérica entraram de pleno direito na U.E., e com ela trabalham os deputados galegos bons e generosos que têm a Galiza na sua mente e no seu coração.

Ultimamente a deputada Ana Miranda em 2012 também está a usar a nossa língua no parlamento mesmo com dificuldades por parte dos tradutores de espanhol que desrespeitosamente não traduzem o que ela diz quando fala no seu galego natural, embora os funcionários que transladam para o inglês, francês, etc... não tenham qualquer problema. Se a nossa fosse uma língua extra-oficial a possibilidade de tradução seria nula...

Sabemos que o BNG tradicionalmente não se manifesta claramente em favor dum reintegracionismo prático e consequente, sabemos mesmo que apoiaram a ideia do bipartido de levar a cabo a “oficialização" do galego (RAG, entenda-se) obviando a realidade comunitária de reconhecimento do galego (português, entenda-se também) como língua oficial desde a passagem do eurodeputado Posada pelo parlamento. Aproveitando a presença do BNG no parlamento europeu, este é um bom momento para fazer pedagogia institucional e ensinar aos seus militantes, seguidores e votantes (e também os que não o são) que galego é português e português é galego com todas as consequências possíveis, mesmo normativas e geo-estratégias, e nao para seguir a política linguística do PP e do PSOE que querem "oficializar" o que eles denominam de "galego" para consumar a ruptura entre as falas galegas e portuguesas convertindo a nossa língua em carniça para o uniformismo castelhanófilo que rege o Reino da Espanha desde que este existe como tal.

Se a ideia é dar a conhecer a realidade linguística comum galego-portuguesa, parabéns, mas se a ideia do BNG é fazer coerente uma ideia de galego “de seu”, como parece que faz em boca da Ana quando quer meter a nossa língua na mesma saca do que o catalão, basco e outras ao querer "oficializá-lo"... e conceitualizá-lo implicitamente como diferente do português, acabará fazendo evidente a ideia que muitas pessoas têm de que o reintegracionismo bloqueiro, até agora, platónico é só uma via para conseguir votos dum eleitorado galeguista cada vez mais virado para o sentimento de unidade linguística galego-portuguesa e fará ver o BNG como mais um partido que joga contra a língua dos galegos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Há muita fome no mundo.

Por José Manuel Barbosa
Uma rapariga adolescente fez-me um comentário de sobremesa o outro dia num jantar: “Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro do que fazê-lo pelo galego? Há gente que passa fome no mundo!!
A rapariga, adolescente lúcida e inteligente tapou a minha boca com uma manifestação rotunda e categórica para além de verídica e real perante a minha paixão galeguizadora acrescentada com uns quantos anos de compromisso linguístico. A sua lógica feita com a visão realista das cousas duma nena de 16 anos que começa a ver o mundo tal qual é trouxe-me à realidade.
A sua ideia simples mas impecável levou-me a cavilar toda a tarde e não pôde mais do que dar-lhe a razão finalmente. Pensei que países como Uganda ou Tanzânia, Zimbabué ou Namíbia têm prioridades mais importantes do que desterrarem o inglês dos seus territórios para fazerem das suas múltiplas línguas nativas instrumentos de cultura, comunicação ou criação literária.
É assim como neste caso o inglês se faz a língua mais poderosa do planeta; porque os pobres orçamentos desses países não vão destinados para a normalização do swahili ou o hotentote mas para erradicar a fome, vacinar as populações contra enfermidades que não conhecemos na Europa pelas nossas condições higiénicas e de salubridade ou ensinar a ler às crianças para elas poderem ver um futuro de maior qualidade de vida nos seus países.
Já o dizia Jordi Pujol a respeito do catalão: “O catalão custa dinheiro”. Tinha razão o velho dirigente catalão, como razão tem a rapariga, mas evidentemente Catalunha não é Uganda e a fome como mal social endémico não existe, como também podemos dizer que o seu sistema de saúde é dos melhores da Europa que é como dizer que está entre os melhores do mundo.
 Catalunha pode portanto permitir-se o luxo de investir na sua língua milhões de Euros e fazer com que o catalão seja uma língua de cultura, arte, comunicação e seja aliás elemento gerador de riqueza material ao existir com isso a possibilidade de que haja um mercado linguístico que crie e agilize o movimento económico e enriqueça os catalães.
Por outra parte o Reino da Espanha ingressa aproximadamente um 15% do seu P.I.B. graças ao castelhano por ser esta a língua oficial de 22 países do mundo e um total de mais de 400 milhões de utentes. A política linguística da Espanha a respeito do espanhol é por isso geradora de riqueza material fazendo da língua de Cervantes uma das mais prósperas do mundo do ponto de vista criativo, cultural, artístico e literário mercê a um mercado amplo que lhe dá umas possibilidades importantes a respeito doutras línguas de países com mais poder político e económico.
No que diz respeito da Galiza podemos dizer com total tranquilidade que também não somos Namíbia; também não passamos fomes, nem andaços embora não sejamos tão desenvolvidos como a Catalunha, pois vivemos numa conjuntura económica europeia que nos faz ricos com referência ao contexto mundial embora pobres dentro do contexto europeu.
Para além de todo isto a Galiza tem uma política linguística que pelo menos na teoria -e digo na teoria, porque é isso o que se diz, não entro no que se faz- vai destinada para fazer do galego essa língua de cultura, arte e comunicação que sonharam os nossos grandes galeguistas e que não só fosse usada por razões de voluntarismo patriótico ou fervor nacionalista mas também por gerar riqueza material com o qual a nossa gente se sentisse achegada a ela por algo mais do que por sentimentalismo neo-romântico.
Mas também Galiza não ingressa o 15% do seu P.I.B. pela sua língua, mais bem neste caso tem um índice negativo. A Junta da Galiza perde dinheiro por causa do galego de tal jeito que se as nossas instituições deixassem de investir na língua -ou quiçá fosse melhor dito contra ela- o nosso P.I.B. subiria 2 ou 3 pontos. Essa situação dá asas e argumentos a pequenos coletivos kukuxklánicos que se organizam para atacarem o galego, reivindicarem o direito de ignorá-lo e agirem para que este desapareça do nosso país. Hábil política linguística que não mata mas dá para que morra.
Curiosamente, ou por acaso, o galego é reconhecido por linguistas, filólogos e cientistas como uma das três variantes do sistema linguístico galego-português (galego, português lusitano e brasileiro), falado por quase 320 milhões de pessoas por todo o mundo e os cinco continentes; é oficial em 10 países, co-oficial desde o 2007 na antiga Guiné-Equatorial espanhola, segunda língua de Uruguai e oficial lá desde 2008; segunda língua latina em número de utentes depois do espanhol, por acima do francês, do alemám e do italiano em extensão territorial e humana; terceira língua europeia depois do inglês e do espanhol, quinta do mundo depois do chinês, hindi, inglês e espanhol; língua oficial da ONU, da EU, Mercosul, Unidade Africana... Com um futuro importante por ser o Brasil uma nova potência emergente que faz da CPLP uma organização lusófona atrativa para países, mesmo anglo-saxônicos como a Austrália, que quer entrar nela quebrando com ideias quase racistas surgidas no carpeto-vetonismo histórico no que vivemos.
Com uma política linguística acertada e focada não só para a sua sobrevivência mas também para o seu florescimento, com um bom tratamento filológico e linguístico, adaptando a norma a esta realidade científica, política e geoestratégica tão favorável quiçá não chegaríamos a ingressar o 15% do P.I.B., (ou sim?) mas sim o 8% ou o 10% ou o 6%... com o qual a nossa língua geraria riqueza material para além da cultural.
E digo eu: Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro que em eliminar a nossa língua? Em vez de gerar gastos e perdas por causa dum modelo de normalização que mata e inutiliza a língua dos galegos, fornecendo de argumentos a pequenos grupos muito ideologizados e ultras que trabalham para bani-lo da Galiza, não seria melhor fazermos da língua um autêntico setor económico com um mercado prospero que lhe desse o prestígio que teve em épocas medievais? Porque queremos um galego pequeninho e de aldeia em vez de um grande, internacional e concorrente com as grandes línguas do mundo? Não estamos para deitarmos a casa pola janela. Há muita fome no mundo!!!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os deuses da morte e a relação com a Companha



Por David Outeiro

Como podemos observar existe uma relação entre a chamada caçaria selvagem com a iniciação dos guerreiros e especialmente os caçadores. Esta ideia é a que refletem as narrações célticas da Irlanda e Gales, mas também certos petróglifos galegos e a pintura de Orca dos Juncães. O caldeiro de Gundestrup também reflete uma destas cenas. São todos eles uma série elementos que estão espargidos pela nossa geografia mítica, mas se fizermos uma analise holística poderemos ver é o fenómeno do que estamos a falar. Há elementos na Galiza que nos fazem pensar nessa ideia mas também na sua continuidade através dos tempos. São os jazigos da Paróquia de Oburiz, com a que dei graças ao Prof. André Pena Granha (1).

Na paróquia de Oburiz (Guitiriz) existe uma porta que tem mais de 3000 anos. Uma porta ao Além. Esta porta é uma gravura dum petróglifo da Idade do Bronze que é a representação mais antiga de Europa duma porta do "Hades". Ela só poderá ser trespassada por alguns, segundo o Prof. André Pena "...é o trânsito vertical ao submundo, reservado aos nobres e cavalheiros, por uma porta aberta numa rocha". Isto não é tudo, pois nos tempos da velha Kalláikia, nessa paróquia, dedicaram duas aras votivas aos Lares Viários, deuses psycopompos e dos caminhos.
Por se fosse pouco, também existe a representação duma tríade não muito clara. Com a chegada do cristianismo as crenças arredor dos deuses e as aparições dos caminhos, assim como o perigo das encruzilhadas, seguia vivo. É por isso que se começaram a pôr cruzeiros, nos que três deste lugar se dirigiam ao petróglifo, à porta do Além, que seriam deslocados para uma encruzilhada ao pé da igreja de Oburiz. Um dos cruzeiros desta igreja que chama a nossa atenção, apresenta dous laços e um galo sobre eles... Citando de novo ao Prof. André Pena: "Na cruz representam-se dous laços psychopompos para atar as almas como o cordão de San Francisco. O galo fez que se lhe equiparasse com o Mercúrio". São os mesmos laços que levam Bândua e Ogmios/Ogma, os mesmos laços que levam as Ânimas de cara o Além. Na paróquia rende-se-lhe culto a São Pedro, um santo que tem laços entre os seus atributos e que conta com as chaves do céu...é o herdeiro da velha ideia dos deuses psycopompos. É sabido que durante milhares de anos existiu uma continuidade em torno a uma ideia: a dos exércitos da noite e a da condução das Ânimas por deuses obscuros.

Os deuses obscuros perviveram, durante a noite percorrendo os caminhos como uma hoste guerreira. É uma mitológica comitiva que pode ir acompanhada por cães e que leva Ânimas encadeadas...como os guerreiros celtas remedando ao seu deus. A companha, a Estantiga, Antarujada, As da noite, A hoste...são aparições nocturnas que pertencem a mitologia galega atual. Sabemos já que vêm dum velho passado céltico, mas vamos ver como se nos apresentam hoje em dia.

A Santa Companha é um popular nome literário para a Companha, mas tradicionalmente não é esse o seu nome; é Companha, mas de Santa não tem nada. Pode que cada paróquia tenha a sua, uma procissão de mortos que segundo alguns afirmam está dirigida pelo morto mais antigo da paróquia; é quem chama aos demais mortos para se erguerem e começarem o seu caminho. Cheiro a cera, desacougo, medo, estranhos ruídos de cadeias delatam a chegada da aparição. Vão em duas fileiras e envoltas em sudários portam candeias ou ossos ardendo ainda que também podem portar uma cruz processional ou um caldeiro com agua benta. Será o caldeiro do renascimento?. No caso do portador da cruz é o único vivo que vai na comitiva, que por topar-se com ela foi condenado a tomar o relevo e acompanhar as Ânimas dos defuntos cada noite enquanto ele vai esmorecendo. Diz-se que se a paróquia é dum santo, o portador será varão, se é duma santa, será uma mulher. A pessoa que abre a comitiva não poderá revelar nunca que é o portador da cruz, só o seu cada vez mais decadente aspecto e evidente esmorecimento físico que o vai levando de cara a morte é o que indica a sua condição. 

Em algumas ocasiões a companha pode inclusivamente ir na procura duma pessoa e tirá-la pelo olho da chave da porta ou por um oco. A Companha também agoira a morte, deixando um caldeiro diante da casa de aquele que vai a morrer. Às vezes há um cadelo negro com um ajóujere que vai com a companha. A misteriosa comitiva, e segundo a crença recolhida nos Ancares, toca o Miserere e toca bombos e tamboris.

Há duas personagens que em ocasiões dirigem a comitiva e que nos interessam especialmente: O Bode e a Estadeia. A Estadeia é um fantasma alto que vai coberto com um sudário do qual lhe, sobressai uma caveira com olhos vermelhos e que bota baforadas pela boca. Para alguns a Estadeia dirige uma comitiva distinta à Companha; uma comitiva mais agressiva que captura e maltrata à gente. A Estadeia pode apresentar-se só como agoiro de morte sendo similar ao Ankou bretão que dirige as Anaon. 

 O Bode é o dirigente da Hoste ou Hostilha. Para os autores do Dicionário dos seres míticos galegos, trata-se de Odin. Em Cornualha Odin é convertido num demo negro que dirige cães que capturam almas humanas.
Tal e como recolheu Carmelo Lisón Tolosana em "La Santa Compaña" há muitas testemunhas de pessoas que asseguram que estas aparições provocam danos àqueles com os que topa. Luzes, ruído...precedem uma aparição que flutua no ar e que desloca às pessoas para um lugar longínquo quando as apanha. Depois de serem arrastadas descobrem os danos que lhe foram provocados.
Há por costume sinalar a relação existente entre a Companha e a crença no Purgatório. Para os galegos, o purgatório é o lugar onde se acham as Ânimas que não estão nem no céu nem no inferno. Isto supõe que as Ânimas se passam um tempo na terra antes de se encaminharem ao Além. Esta crença pôde ser uma sincretizaçãó das ideias cristãs com as célticas no que diz respeita da última viagem... já que para os povos celtas as Ânimas iam ao Além dirigindo-se de cara o Oeste, seguindo os deuses dos laços e embarcando-se rumo as Ilhas da Eterna Juventude. A crença na companha e a crença nas Ânimas que percorrem os caminhos é uma continuidade das velhas ideias dos nossos antepassados celtas no que diz respeito da morte e a última viagem. Nesta tem-se como condição prévia à ida definitiva o ficar certo tempo na terra. 

Para o antropólogo Manuel Mandianes, o Além é uma dimensão paralela com a que se contata com frequência...A Galiza divide-se em paróquias dos vivos mas também estão as paróquias dos mortos. Os antigos celtas tinham esta ideia, se bem situavam as Ilhas do Além (Tir naN Og) lá onde o sol se oculta. Isso não era obstáculo para contatar com frequência com os espíritos do Sidh. De facto, a companha aparece por vezes voando e dirigindo-se a certas Ilhas com rumo Oeste. Isto indica que na mitologia galega perdurou a ideia da viagem as Ilhas do Além.

São muitas as evidências que nos indicam que os seres da noite que dirigem "as Companhas" são uma lembrança dos velhos deuses condutores de Ânimas. Deuses aos que se vinculavam os guerreiros e que se apareciam na noite no seu eterno caminhar. Cães, cadeias, tambores, direção até certos encraves....eis a herança da caçaria selvagem, dos exércitos da noite e dos deuses obscuros.
Com a chegada do cristianismo e a sincretização, os deuses dos laços seriam cristianizados como é o caso de São Pedro, São Torquato( Trocado), Santo André (Andor, o caminhante)...mas também contamos com psycompompos como São Roque, tão vinculado ao cão.

Chama a nossa atenção também observar a ideia que transmite o sepulcro de Pero de Andrade. O seu sepulcro dá ideia duma caçaria. Está assentado sobre um urso e um javali, animais que para os celtas representam a soberania e a força guerreira vinculada ao deus supremo mas também têm a ver com o sacerdócio. Aos seus pés há dous cães, animais psycopompos. Este cavalheiro galego morto no 1397, conhecia bem todas estas crenças que codificou na sua tumba...

Sabido é pelos antropólogos que as Ânimas dirigidas pelos deuses dos laços seguiam um roteiro, um caminho bem conhecido desde faz milénios que conduzia as Ilhas do Além. Um caminho que é a projeção da Via Láctea na terra e que segue o trânsito solar. O caminho de Santiago e o de Santo André são a lembrança desse velho caminho. Se Setanta (Cuchulainn) e Santo André são os caminhantes, se Ogmios/Ogma é o caminho...que caminho é que faziam os caminhantes? E quem era esse deus "sem nome" que os aguardava?.....

O lume da lareira está esmorecendo. Vamos acabando por hoje a polavila, mas em vindoiros artigos trataremos de esclarecer o mistério da última viagem dos celtas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O nosso idioma na Oceânia

Por José Manuel Barbosa

Castelão conta-nos no seu "Sempre em Galiza" que a nossa língua é extensa e útil porque com pequenas variantes se fala em Portugal, Brasil e nas (ex-) colónias portuguesas. Algo sabemos sobre ela na América, na África e algo menos, mas algo, na Ásia....mas a história da língua na Oceânia e muito desconhecida. 
Há uma teoria defendida ultimamente pelo nosso amigo e professor luso-australiano Chrys Chystelo que nos diz que os primeiros europeus em chegar a Austrália foram os portugueses. Esta teoria bem conhecida em outras partes do planeta abre novas portas ao conhecimento do nosso passado e nos dá lógica à necessidade do português em terras do longínquo Sul...das antípodes. Vamos ver algo disso:


Timor

Os portugueses chegaram a esta região da Oceânia em 1514 com o fim de explorar as suas riquezas naturais e com o fim encomendado pelos papas de levar missionários para propalar a religião católica.
A primeira organização da Ilha foi no ano de 1702 para dar uma administração colonial criando um território denominado Timor Português mas criando um conflito de fronteiras com a Holanda que se solucionou em 1914 e fixando as fronteiras que ficam reproduzidas hoje.
Na Segunda Guerra Mundial os Aliados, nomeadamente australianos e holandeses lutaram contra o Japão nesta ilha violando a neutralidade de Portugal que recuperou o seu domínio em 1945 quando foram expulsos. Após estes acontecimentos e dada a passividade de Portugal perante esta guerra na defesa do Timor e os muitos sofrimentos e sangue investido contra os japoneses por parte do povo timorense, o sentimento independentista colhe força.
De qualquer jeito as guerras nas colónias africanas não têm qualquer correlato na Ilha que ficava unida na sua multiplicidade étnica, cultural e política de mão dos portugueses
Com a data de 28 de Novembro de 1975 e após uma guerra civil de duração curta ocasionada pela mudança de regime na República Portuguesa é proclamada a República Democrática de Timor-Leste ou Timor Lorosae, mas em 7 de Dezembro é invadida pela Indonésia. Durou 24 anos a ocupação do território português que nunca aceitou nem reconheceu nem a independência nem a ocupação.

 A violência e o etnocídio deixaram um Timor numa situação muito complicada. A luta contra o comunismo por parte da Indonésia justificou a olhos das grandes potências ocidentais a ocupação mas não impediu a condenação por parte da ONU. Quase 200.000 vítimas por parte da Indonésia fazem desta carnificina histórica um dos mais grandes etnocídios do século XX, com torturas, combates, guerrilhas, esterilizações forçadas...
Para além disso, a proibição do português e a islamização obrigou o governo indonésio a trazer pessoal humano desde a Ilha de Java com o fim de diluir a identidade timorense e levar a cabo a  exploração dos recursos petrolíferos do Mar do Timor com a cumplicidade da Austrália. Isto fez com que a economia da Ilha se sentisse de forma muito especialmente importante.
Tudo isto provocou com que o sentimento de independência se acrescentasse sendo chefiado por figuras como Nicolau Lobato ou Xanana Gusmão.

A internacionalização do conflito e a luta diplomática junto com a ajuda do Vaticano fizeram com que em 30 de agosto do 1999 os timorenses votaram a independência por meio dum referendo promovido pela ONU para que em 20 de maio do 2002 se viesse a concretizar a tomada do poder livre da Indonésia e a entrada nos Organismos Internacionais.

Segundo a Constituição democrática do país, o Tétum é a língua oficial e nacional da República Democrática de Timor-Lorosae ao lado da língua portuguesa acompanhadas de mais quinze línguas de origem malaio-polinésio. Aliás a língua indonésia e o inglês têm reconhecido o estatudo de línguas de trabalho da administração. Ainda o chinês tanto mandarim como cantonês são faladas na ilha por causa das migrações favorecidas pelos aconteceres históricos da Ilha.

Durante a época colonial o português era a língua da administração e do ensino convivindo com as outras línguas nativas. Ao ser proibido  pelos indonésios e dar-se a situação de imposição da língua dos invasores a afetividade popular faz com que se considerasse a nossa língua  símbolo de resistência usada e promovida pelo FRETILIN (Frente de Timor para a Libertação Nacional). Dessa forma conseguida a Independência o Português torna-se  língua oficial.
Portugal e Brasil têm colaborado ativamente no progresso da Ilha fazendo com que a nossa língua tenha nesta altura uma percentagem de falantes de cerca de 25% o que lhe dá um lugar de importância mais do que simbólica na região.

Até agora, e antes do Acordo Ortográfico, a norma ortográfica usada pela República Democrática de Timo-Lorosae é a brasileira. Isto é por ser os contactos com o Brasil muito mais intensos do que com a República Portuguesa centrada em assuntos europeus e penínsulares mais do que em desviar fundos económicos e humanos na recuperação das suas ex-colónias ultramarinas.

Os vínculos entre o novo Estado de Timor-Lorosae e a ex-metrópole são fortes ainda hoje. As razões históricas para além das linguísticas unem fortemente os dois países mas a influência e o apoio material, económico, cultural, linguístico e empresarial do Brasil nesta ilha ex-portuguesa fazem com que as hipóteses de sobrevivência linguística do galego-português se acrescentem muito numa região do planeta onde anteriormente fora língua franca hegemónica sobre outras línguas europeias. Nessa região a afetividade em favor da nossa língua é grande e isso é muito interessante para projetos futuros e muito mais se o Brasil atender estas necessidades.


Austrália

A região dos Kimberley onde von Brandenstein coloca os territórios de colonização portuguesa na Austrália e onde se falou um crioulo de base portuguesa pelos Yawuji Barra e os Yawyji Baía até meados do século XX, mescla de aborígenes e escravos pretos africanos.

Chegados aqui, há que dizer, ou melhor, desvendar o facto de os portugueses terem chegado às costas norte-ocidentais da Austrália muito antes do que quaisquer outros europeus. É esta teoria mantida e desenvolvida por Kenneth Gordon McIntire, advogado e estudioso australiano de origem escocesa, no seu livro “The secret discovery of Australia” e ocultado até aos nossos dias pelo xenofobismo inglês que ainda hoje mantém falsamente ao Capitão James Cook como o autêntico descobridor do vasto continente dos mares do Sul, mas apenas o Capitão Cook chegou a Austrália no 1770 enquanto que o escocês McIntire diz que os portugueses atingiram Botany Bay e Sydney Heads entre os anos 1516 e 1524.

Isto não parece muito despropositado se considerada a proximidade entre as colónias portuguesas do Sueste asiático e a Austrália (416 quilómetros  por mar desde a Ilha do Timor) e pela possibilidade técnica e material de podê-lo fazer numa altura histórica na que o Reino de Portugal era uma grande potência marítima, capaz de atingir esses 416 quilómetros com muita facilidade.

Um antepassado do Professor McIntire descobriu no século XIX um mapa chamado “O Delfim” e elaborado no 1536 para o príncipe herdeiro da Coroa de França (daí o nome d’O Delfim), no que aparece ao Sul da Indonésia uma grande massa continental chamada de Java a Grande que segundo as provas que McIntire expõe deveria ser a Austrália pelas formas.

Existem, aliás, umas ruínas em Nova Gales do Sul nas que aparece uma pedra com uma inscrição com uma data. Nessa data aparece apagado o terceiro dígito de tal forma que se fosse um 2 poderia ser o ano de 1524, ano no que segundo a documentação histórica por ele consultado faria com que o protagonista dessa expedição e descoberta poderia ser Cristovão de Mendonça. Sabe-se, ainda, que James Cook na sua famosa expedição se valeu de Manuel Pereira, um marinheiro português embarcado no Brasil para entender-se com os aborígenes o que leva a acreditar na possibilidade de os portugueses conhecerem essas terras e a forma de se entenderem com os nativos.

Também o historiador e linguista Carl Georg von Brandestein mantém que o Noroeste australiano foi colonizado por portugueses e escravos africanos pretos levados pelos esclavagistas lusos à região de Kimberley. Esses descendentes de escravos africanos miscigenados com aborígenes mantiveram um dialeto mistura da língua autóctone aborígene e crioulo português do qual mais de 260 palavras de uso comum são do nosso idioma e mais de 80 topónimos têm a sua origem no galego-português.

 Esta variedade linguística permaneceu viva até o ano 1930 numa zona que ocupa a região de Pilbara, nos montes Kimberley e entre o arquipélago Buccaneer até ao Vale do Fitzroy. Foram colonizadas as terras de Dampier, a Angra do Rei desde Derby até à foz do rio Fitzroy em Yeeda, sendo habitadas essas regiões pelos Yawidji Barra (antepassados dos Barra) e os Yawidji Baía (antepassados dos Baía. Literalmente Yadwidji significa avôs). Estes grupos humanos seriam os descendentes dos Yawuji, os que tomaram contacto directo com os primeiros portugueses que ali chegaram a começos do século XVI.

Tendo em conta que até ao 1832 o Reino Unido não reconheceu como suas as possessões da Austrália Ocidental aguardando que Portugal as reclamasse e se fizessem valer os seus direitos históricos para assegurarem-nas como pertencentes ao Reino de Portugal, e tendo em conta que a evidência humana e linguística esteve presente durante muitos anos –mais de três séculos-, só se entende que esta história não se ministrasse nos programas universitários e se chegasse ao ponto de se distorcer a história por várias razões.


Acha o professor  J. Chrys Chrystello da University of Technology of Sydney (2005: 61-96), em quem nos baseamos para escrevermos este texto, que isto atende para duas razões fundamentais. Estas são: a) Por ser o Reino Unido uma potência colonial, militar e económica muito mais poderosa do que Portugal durante os séculos que nos ocupam nesta narração dos factos e portanto potência cultural que conta a história segundo os seus critérios e interesses políticos e históricos, e b) por estarem essas regiões de Austrália zonas fora da demarcação do Tratado de Tordesilhas (ou pelo menos duvidosas segundo critérios da  época), e portanto legalmente não pertencentes às regiões determinadas como áreas de influência e colonização portuguesas, mas espanholas, o que a final fez com que não fosse reconhecido claramente o protagonismo português nessas regiões por prudência e temor ao sempre inimigo espanhol. 
A dia de hoje a Austrália, pertencente à Commonwealth descobre e reconhece os seus vínculos com a língua nascida na velha Gallaecia. É por isso que o seu interesse de se integrar no mundo da Lusofonia é claro, conhecido e desejado pelos próprios australianos.


Bibliografia:

Baxter, A. 1990. “Notes on the Creole Portuguese of Bidau, Timor”. Journal of Pidgin and Creole Languages 5.1:1-38
Chrys Chrystello, J. “The Yawuji Barra and the Yawuji Baia (Os Avôs de Barra e os Avôs de Baía)”. Revista AGÁLIA. Revista de Ciências Sociais e Humanidades. Nº 81/82, 1º Semestre do ano 2005. Ed. AGAL (Associaçom Galega da Língua). Santiago de Compostela. 2005
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