domingo, 27 de novembro de 2011

Treinar e Adestrar ou a imposição da ignorância

Por José Manuel Barbosa
A interdisciplinariedade é um elemento interessante a ter em conta em todo o momento, mas ainda é muito mais ao tratarmos sobre assuntos da língua, tanto da sua história, como do seu lugar dentro da família românica ou em relação ao seu Córpus.

Muitos de nós (por evitar-me o radicalismo de dizer «Todos nós») estamos fartos de saber quantas as incoerências, quantas as irregularidades e faltas de lógica há nas normas RAG. Todas e todos, cada um desde o seu âmbito científico e/ou laboral, poderíamos acrescentar uma grande bateria de argumentos que deitariam por terra uma grande quantidade de formas normativas usadas pelos média galegos, pela administração, pelos lideres políticos e ainda pela gente do comum contaminada por esse engendro populista que faz acreditar a muitos na existência em Galiza duma língua «de seu» tão original e isolada como o éuscaro. Como se isso fosse o «non plus ultra» do mundo da linguística, da filologia e da reivindicação da singularidade dos povos.
Todos conhecemos as «originalidades» da norma RAG quando nos propõe construções léxicas como «Esoxeno» ou «Osíxeno» tão habituais nos livros de texto dos nossos alunos de física ou química (1), contando com que os rapazes e as raparigas de primária e secundária não conheçam o facto da importância que tem a etimologia para o léxico científico, como nos tem comentado tanto o nosso amigo e companheiro Carlos Garrido

Uma língua que opta por formas como «Esoxeno» e «Osixeno» não é uma língua que possa servir para transmitir conhecimentos científicos porque deturpa a comunicação. E é que essa filosofia linguística é uma dessas típicas teorias científicas (por chamar-lhe algo) que uma vez expostas, exprimidas, fracassadas e superadas não podem nem devem ser lembradas nunca mais na história se não é como exemplo do absurdo para as gerações futuras.

Lembro, com isto que vos conto, o que lhe aconteceu a um amigo a quem uma conhecida editora isolacionista lhe ofereceu fazer um livro de contos infantis com aproximadamente cem mil palavras por 3.000 Euros. O meu amigo, respondeu numa humilde comunicação telefónica com o responsável que não podia aceitar esse trabalho porque no galego RAG não havia cem mil palavras.

A minha atividade laboral diária envolve-se no ensino relativo à matéria que chamamos Educação Física, e isto, ainda que não pareça, também tem pensamento e teoria científica, com uma nomenclatura determinada, com conceitos claros e concisos, hipóteses, pensamento e filosofia. Essa que tão difícil é de exprimir e que tanta dor de cabeça faz ter a quem se atreve a penetrar nela. Conceitos como o de «Adestrar» ou «Treinar» vêm-se-me  facilmente à minha cabeça e à minha boca quando tenho de comunicar com os meus alunos. E difícil é, porque adequar a minha fala espontânea a uma realidade normativa imposta de forma absurda (e sabê-lo!) faz-se habitualmente difícil até o extremo de ver como se movem os fios ocultos quando se me escapa algum «lusismo».
Quando Tério Carrera ou Manolo Pampín, e sobre tudo os seus assessores linguísticos (de os haver) dizem que Arsénio Iglésias, David Vidal ou Fernando Vázquez são «adestradores» seguramente não conhecem que para os teóricos da Educação Física, «adestrar» implica só desenvolvimento motor. Algo que não é coerente com a ideia de preparação para o desporto de competição que precisa de técnicas, tácticas, estratégias, que a sua vez implicam uma planificação, inteligência na ação que tenta poupar esforços e conseguir com isso o maior e mais vantajoso sucesso a respeito do concorrente. 
«Adestrar» é simplesmente trabalhar a parte mecânica de tal forma que o ser humano necessita outra forma de preparação para a competição. Assim em francês usa-se a palavra «entraîner», em inglês «to train», em espanhol «entrenar» e no resto do nosso domínio linguístico «treinar». Esta forma deriva do latim popular TRAGINARE derivado à sua vez de TRAGERE como alteração de TRAHERE (levar de un lugar afastado a outro mais próximo). 
É uma forma léxica que denota e implica uma preparação racional e planificada com a finalidade de conseguir um objectivo mercê a uma preparação prévia e uma educação do desportista mediante uma metodologia com importantes elementos pedagógicos e portanto exclusivamente humanos. Por outra parte «adestrar» vem de AD DEXTRARE, quer dizer, fazer destro, hábil, com conotações puramente mecânicas e motoras.

O treinamento implica aspectos qualitativos enquanto o adestramento só quantitativos, mecanicistas, parciais e limitados ao aspecto físico.

Evidentemente a comunicação dos comentaristas da TVG vai destinada majoritariamente para gente formada, informada ou desinformada em qualquer cousa exceto na teoria da Educação Física... mas os que sim estão ou estamos minimamente formados e somos professores devemos por imperativo legal seguir as normas RAG. E em caso de discrepância aplicar-se-ia primeiramente o artigo primeiro do regulamento não escrito do ensino: «A norma RAG sempre tem a razão», para em caso de vir à cabeça algo de filosofia e portanto de discrepância, imediatamente aplicar o artigo segundo: «A norma RAG não se discute».
Digo-vo-lo eu que o sei...

Nota: 
1. «Eso-xeno» viria significar seguindo a etimologia algo assim como «estrangeiro de dentro» onde Eso=adentro e Xeno=estrangeiro. Quando se for escrita à forma portuguesa, espanhola, francesa, inglesa, etc... «Exogeno», significaria «originado fora»: Exo=fora, Genos=origem.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Por uma hora galega

Por José Manuel Barbosa
São as 7:00 da manhã e o relógio começa a soar com força indicando-me que o prazer de estar nos braços de Morfeu (que não do “mais feio”) acabou. Com muita vontade de continuar a dormir tiro a roupa da cama e tento como posso pôr os pés no chão sem poder evitar que me abalem as pernas que não me respondem. O esforço que faço para começar o novo dia (dia?) é titânico. Posteriormente e após ajeitar o meu rosto perante o espelho a algo parecido a um sorriso caminho rumo do chuveiro onde vou despertando, mas algo me diz no meu interior que isto que faço todos os dias é um contra natura. O meu coração late a uma velocidade maior do normal, os meus olhos pedem obscuridade, as minhas pálpebras pesam e quando apanho o carro para deslocar-me ao meu centro de trabalho ainda é noite fecha. Só quando estou a chegar ao meu destino é que sai o sol.

O meu relógio biológico comunica-me por meio duma grande sensação de cansaço, por umas amplas olheiras e por uma tensão arterial que não é a que deveria ter, que estou a fazer algo incorreto, e não tenho forma de evitá-lo a não ser que mande o trabalho ao c......., por aquilo de que “se o trabalho é saúde, que trabalhem os doentes”. Em fim, não tenho muita vontade de ficar no desemprego, e comer há que comer todos os dias (grande ditadura essa de comer!!).
Por isso o meu pensamento racional me leva a acreditar na ideia de que em qualquer momento a minha saúde vai dar sinais de advertência nestes meses de outono-inverno e com isso necessite dous ou três dias de recuperação com uma terapia de sono que vai provocar um gasto à administração que somado a outros tantos casos como o meu façam com que a mudança horária à qual os galegos estamos submetidos sirva para perder milhões de Euros por absentismo no trabalho.

Bem pouco inteligente, por anti-ecológico e anti-natural esta forma de ordenar as cousas, tudo isto num Estado ocidental como é o espanhol que se apresenta ao mundo como adiantado, ordenado e avançado.
O INEGA (Instituto Energético da Galiza) organismo vinculado à administração, indica que a mudança horária no nosso país só nos permite poupar um 1% do consumo elétrico no setor dos serviços e no doméstico, muitíssimo menos do que poupa, por exemplo, Catalunha, país onde sai o sol quase ¾ de hora antes do que na Galiza. Em troca se os galegos tivermos uma hora oficial igual do que a República Portuguesa, Canárias ou a República de Irlanda, a poupança seria de quase um 10%, segundo diz a Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários Espanhóis (CNRHR). Os inconvenientes desta adequação horária dentro da Espanha viriam por razões de operatividade nos transportes, nas telecomunicações e nos mercados, mas esses mesmos problemas existem em países de territorialidade ampla como é o caso do Canadá, os EUA, o Brasil, a Austrália ou a própria Rússia, sem nomearmos o exemplo próximo das Ilhas Canárias que estão dentro do Estado Espanhol... e não se passa absolutamente nada.
Voltando a uma argumentação ambientalista e naturista, temos que dizer que a sincronização dos relógios solar, oficial e biológico só traz vantagens dum ponto de vista da saúde e portanto da economia relacionada com o gasto no setor sanitário. Os ritmos biológicos humanos, a segregação hormonal segundo -e seguindo- a luminosidade natural do ciclo diário faria com que as nossas jornadas laborais ganhassem em rendimento e com isso evitarmos o dano que causa a má adequação dos ciclos da melatonina e outras hormonas que seguem um ritmo harmónico com o giro do planeta. A correta harmonia das funções orgânicas como são a respiração, a vigília, a tensão arterial faria com que a nossa qualidade de vida se visse acrescentada muitos pontos, o nosso bom humor polas manhãs se visse favorecido –também por isso o resto do dia- e portanto a produtividade atingisse mais altas quotas em benefício não só dos nossos chefes e superiores laborais –é o capitalismo!!!-, mas também em benefício do nosso país.
Se a Galiza se adequar ao ritmo horário natural concorde com a sua posição dentro do planeta, o nosso país ganharia em saúde, em riqueza económica e em alegria mas para isso seria necessária uma pequena dose de independência moral e um pouco menos de bobagem centralista que nos levaria a uma maior e melhor racionalidade, melhor qualidade de vida com melhores relações sociais, laborais, familiares, associativas e um melhor rendimento da nossa produtividade. Lembremos que no verão temos uma diferença a respeito do sol de 2h e meia e no inverno de 1h e meia. É o Horário Central Europeu fazendo que a Galiza tenha a mesma hora do que a Polónia, a Eslováquia, Hungria, Sérvia ou a Macedónia... Quando nesses países saí o sol ainda faltam quase duas para que saia aqui. Demais.
A ansiedade provocada pela adaptação ao horário oficial espanhol (HCE), a fadiga, os problemas cardiovasculares e um absurdo acréscimo do gasto farmacêutico não nos leva por um bom caminho. O nosso corpo seria agradecido connosco tanto do ponto de vista físico como psicológico e voltaríamos, por exemplo, à tradicional “comida das 12:00” como se dizia na época dos nossos avós e bisavós, aos almoços em família, com tranquilidade e com tertúlia prévia à saída para o trabalho pela manhã cedo, como antes, e as ceias a umas horas que nos permitissem ter o corpo preparado para quando nos deitarmos (lembremos aquilo que diz o meu pai ainda hoje: “de boas ceias estão as sepulturas cheias”).
Mesmo há pessoas que devido ao começo da jornada de trabalho muito cedo dum ponto de vista biológico, às vezes antes da saída do sol, não ingerem absolutamente nada de manhã ao não estarem preparados os seus corpos para qualquer refeição, o qual faz com que se chegue ao trabalho falto de energias e seja necessário perder um tempo adicional para fazer um pequeno almoço que em nenhum caso é o mais acaído em qualidade nem em quantidade para jornadas de oito horas ou mais nas que o rendimento deve ser mais e melhor do que na realidade é.
Quem isto escreve pode falar em muitos casos deste tipo como exemplos ao comprovar como os meus alunos de Educação Física não rendem adequadamente quando à primeira hora da manhã é de exigência cumprir um programa de trabalho físico e ginástica que não pode ser cumprido ao 100% (às vezes nem ao 50%) por causa da falta de alimento por parte de muitos deles, cujo corpo não aceita a ingestão de nada sólido a horas excessivamente temporãs.

Adequando-nos aos ritmos naturais, as cousas ajudariam à manutenção do corpo duma forma muito mais em harmonia com o ciclo vital diário. Os benefícios seriam visíveis se adoptarmos a hora galega à qual se adequavam estes nossos velhos ainda não há muito tempo fazendo caso omisso da ditadura da hora oficial que já desde há quase um século é hora oficial espanhola que nada nos traz de bom.
Mal costume é esse de olharmos um umbigo que neste caso nem sequer é o nosso, mas um que está em Madrid, e ao qual estamos obrigados a olhar por imperativo legal.

domingo, 13 de novembro de 2011

A viagem ao Além em Eire e na Kalláikia


Por David Outeiro

1-Echtra Nerai; A aventura de Nera, o guerreiro valoroso.

Um antigo escrito irlandês do Ciclo de Ulster conta uma velha história ao redor do tenebroso tempo do Samhain. O mítico relato fala-nos do Echtrai Nerai. A aventura de Nera. Esta história é um velho legado que fala das aventuras dum valente guerreiro celta. Mas isso sim, ainda que semelhe velho e longínquo, chegaremos a ver como os sucessos que descreve encaixam com o velho Sámanos galaico e o Magusto atual. As portas  do além estão abertas, vejamos o que nos trazem...
  
“A noite do Samhain chegara ao reino de Connacht e a Óenach desta celebração transcorria na Rát Cruachna. O rei Aillil e a rainha Mebd estavam presentes neste palácio. O rei dispus-se a pôr a prova a sua gente oferecendo a sua valiosa espada com empunhadura de ouro a em troca duma façanha. A sua espada seria para aquele que ousasse a pôr uma fita aos presos que foram executados no dia anterior. Os prisioneiros foram julgados e sentenciados a morrer enforcados durante a assembleia do Samhain. 

Os presentes não puderam evitar a surpresa perante tal oferecimento pois aquela era uma noite muito perigosa e aterrorizante .Já sabemos que a barreira entre o  mundo dos vivos e a dos mortos estava a esvaindo-se. Mas havia um valente guerreiro presente na celebração: Nera. Foi ele quem aceitou a proposta.


Nera coloca-se uma armadura e dirige-se ao lugar onde se acham os enforcados. Enquanto lhes colocava as fitas, um dos enforcados disse-lhe ao guerreiro que teria que levá-lo a beber. Nera aceita e o enforcado elogia o seu comportamento. Por causa disto, terá que levar o enforcado às suas costas até achar água para ele.

Seguidamente o guerreiro levou o enforcado para uma casa mas o defunto rejeitou entrar posto que esta estava rodeada por um lago de fogo. Continuaram até uma segunda, mas acharam-na rodeada por um lago de água, pelo que se vem obrigados a continuar. Chegaram a uma terceira casa, onde por fim, o defunto satisfez a sua sede. Após ter bebido o terceiro copo, o enforcado cuspiu sobre os rostos dos moradores da casa provocando neles a morte. Perante isto, o Nera devolveu-o a forca.

Nera retorna e vai na procura de Aillil, mas acha a fortaleza destruída pelas tropas do Sidh, o exército do Além. Nera após esta situação penetra na Cova de Chruachain, uma das entrada ao Sidh. Dentro, já, dá com as cabeças cortadas da gente da Rát Cruachna. O guerreiro é descoberto pelos habitantes do Sidh e para ficar, vai ver-se obrigado a fornecer lenha.


Com o tempo e antes do seguinte Samhain, a companheira de Nera no Sidh conta-lhe que viu uma imagem da destruição do Cruachna mas que não era real. O que Nera viu no Samhain era uma visão, uma premonição do que ia acontecer no próximo Samhain. Nera voltou com a sua gente chegando a receber a espada do rei. Mas o tempo que tinha passado no Sidh não se correspondia por excessivamente dilatado com o tempo no mundo dos homens. A sua gente foi advertida e preparam-se para atacar o Sidh quando se produzisse a nova apertura deste durante o Samhain. Os guerreiros de Connacht venceram aos do Sidh e conseguiram três importantes tesouros ainda que o valente Nera ia ficar no mundo do Além até o fim dos tempos”.

Como podemos comprovar nesta narração, Nera é um guerreiro que têm a capacidade de se deslocar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos tal e como analisaremos. A etimologia do seu nome remete-nos a "força, grandeza" mas também a "chefe". No velho galês existe a palavra "nar", quer dizer, chefe. No  gaélico  "ner"  significa javali, animal relacionado com a fortaleza e os guerreiros. Na antiga Kalláikia, ao sul do Cabo Fisterra, existia uma treba chamada "Neros" (Nerii em latim) relacionada também com este significado. Neros/Neroi provém do celta NERIOI que significa "virís, cheios de força masculina"; adjetivo de Neros "varão, macho". Há que apontar a que na narração do Echtra Nerai, o enforcado louva a Nera chamando-lhe "viril" por ajudá-lo. Neros/Neroi é o nome que se dava a si própria esta treba mas eram conhecidos por outras trebas com o nome de  Supertamaricos em época latina, anteriormente como ALLOTAMARIKOI ou ALNOTAMARIKOI (As tribos calaicas, Higino Martins. p 191). Este povo, recebia o seu nome porque morava para além do Tâmara-Tambre, um rio temido, perigoso e  relacionado com o além e a deusa tenebrosa. Segundo diz o Higino Martins na sua obra, essa é a origem do nome do rio, a designação de tenebroso... semelhante ao Hades, o escandinavo Gjallr, ou o rio de ondas negras que há que passar para chegar ao país do além: Tuoni. Nomenclatura similar recebe o famoso rio Tamisa de Londres.

Outro aspecto interessante de Nera é o facto de ter que atar aos enforcados. O facto de os atar, suporia que suas as Ânimas não poderiam abandoar o corpo que empregaram durante a sua vida. Mas a sua vez pode ter um sentido psycopompo, quer dizer, de levar as Ânimas de cara ao além. Este vinculo entre os laços e a condução das Ânimas ao outro mundo está presente no deus gaulês Oghmios (irlandês ogma) que possui uma cadeia que atravessa a sua língua e pela que leva aos homens atados pelas orelhas. Mas esta cadeia pode ser uma representação simbólica do seu caracter persuasivo e sábio. Oghmios têm a capacidade, portanto, de persuadir os homens e levá-los até os confins da terra.


O caracter das ligaduras e do seu carácter negativo como anudador da Ânima achamo-la nas crenças galegas atuais. Quando se produz um enforcamento, a gente evita falar da vitima, já que as Ânimas dos enforcados permanecem no lugar. Isto é devido a que o facto de se suicidar por meio duma soga, supõe que o seu espírito permanece na zona manifestando-se em ocasiões por meio de pequenas luzes que ficam no lugar. A aparição de destas luzes relaciona-se a uma morte violenta, aparecendo até que se abençoe o lugar ou se solucione o caso. Com estas crenças topou Vicente Risco: "No Castro de Caldelas suicidou-se umha pessoa e a pouco viram-se umas pequenas luzes no lugar do suicídio". Outro aspecto da mitologia galega é o da Ânima que se aparece para que lhe "rachem o hábito" e que a sua Ânima possa ser libertada. Mas há que ter cuidado, agindo contrariamente à recomendação do defunto no que diz respeito da forma de rachar, pois senão pode-nos levar com ele. No II Concílio de Braga, ano 572, fica interdito: "Não seja lícito aos bispos e padres fazer encantamentos e ligaduras".

2-Nera, Oghmios, Cuchulainn e os seus paralelismos na Kalláikia
No que diz respeito ao aspecto das ligaduras e da guerra aparece no "panteão" galaico na figura de Bândua. Um achado descoberto no acampamento romano de Banhos de Bande (Aquis Querquernis) remete-nos a uma representação dessa deidade que deu nome ao topónimo do concelho. Consiste numa figura dum deus guerreiro que apresenta uma corda atravessando o seu peito. Esse laço que envolve o seu peito corresponde-se com o de Oghmios e inclusivamente com o nome de Bândua os quais estám relacionados: *bhend, "atar" (A. Pena Granha). Essa anudadura supõe uma ligação, um vinculo entre as fratrias que lhe rendem culto. O seu nome aparece em relacionado em vários epítetos que denotam as suas qualidades: Aposolego "forte na vitoria", Cadogus "o lutador", Aetobrigus "a fortaleça dos fogosos" ou "fogosamente forte", Roudeacus "vermelho" (cor relacionado com os guerreiros) etc. O epíteto Aposolego é claro em relação à sua força na batalha. Citando a Blanca García-Fernández Albalat (1990, pp 185-1909; "A vitoria neste deus não seria mais que a derrota do inimigo após a sua imobilização imobilizando-lhe os membros com os seus laços mágicos" .Outra citação da mesma autora diz: “estão registradas estas capacidades que achamos nas divindades indo-europeias: a de atar, ligar, implícita no seu nome e a guerreira derivada dos seus epítetos e da "interpretatio". Por estas causas devemos deduzir, que existe alguma semelhança entre Bândua e este tipo de divindades. Ora bem, se é evidente que as comparações com os deuses dos laços no mundo indo-europeu dão explicação ao vínculo existente entre as ligaduras mágicas e a guerra, ainda permanecem sem resolver duas caraterísticas que atingem a Bândua: a confusão que se apresenta entre Marte e Mercúrio (39) e a relação com as comunidades. A primeira ao nosso entender só podemos resolvê-las no seio do panteão celta e a sua particular concepção da guerra e a magia. A segunda incógnita desvenda-se procurando de novo no seio das religiões indo-europeias, com o fim de pesquisar se os deuses dos laços dirigem a um grupo de gente determinado ou se é que se formam confrarias seguindo ou imitando os deuses dos laços”. No que diz respeito da sua posição, há que dizer que é um deus de primeira função ao modo do Odin germânico mas também se lhe atribui o aspecto obscuro da função soberana Dumeziliana. Bândua é um deus guerreiro mas também pode estar relacionado com a agua, de facto existem banhos termais na zona de Aquis Querquernis. A mesma relação pode estar presente em Bormánico, do proto-indoeuropeu “bhreue” (ferver, violenta efervescência). Mas temos de ter em conta que Bândua têm relação com Coso e com Marte, de facto foi identificado erroneamente com este último por desconhecimento dos arqueólogos ou historiadores. O deus aparece "recrutado" pelas tropas romanas por causa do seu carácter, testemunhado pelo epígrafe "Martis socio Banduae". Bândua e Coso são duas versões galaicas, ao meu ver, da mesma divindade. No caso de Coso, que aparece onde não aparece Bândua e ao invés, trata-se igualmente dum deus guerreiro mas também é um deus vinculado as aguas e à confluência destas. Este aspecto vemo-lo no seu "irmão" do Norte da Grã-Bretanha e França: Condatis. Estes aspectos aparecem claramente em Aquis Querquernis. Um deus guerreiro vinculado a fratrias galaicas que pertenceriam as tropas romanas mas também ao rio e a aguas termais. Isto não é estranho, pois muito do que se tem por romano na Gallaecia realmente é uma nova forma de se verem refletidas na cosmovisão galaica celto-atlântica: Novos jeitos de velhas formas.


A morte do grande guerreiro Cuchulainn em Muirthemne achega-nos um dado de muito interesse: Quando ao  guerreiro irlandês lhe chegou a sua hora no campo de batalha é atado pela cintura a uma coluna de pedra. Morre assim o guerreiro dignamente, marcado o trágico final por um corvo que se pousa sobre ele. Esse corvo é Babd (da tríada de Morrigan e Macha), o mesmo corvo de mau agoiro para os galegos, essa velha deusa chamada na mitologia galega " A Lavandeira" que a sua vez tem relação com um pássaro. Achamos de novo a mesma simbologia vinculada à guerra e à última viagem guiada por Oghmios. Mas se analisarmos a história de Cuchulainn podemos tirar dados de interesse. O nome original deste heróico personagem era Setanta. Este, numa ocasião, de criança, foi visitar o seu pai adoptivo à casa do ferreiro Culann. Nesse momento, teve de se enfrentar ao cão do ferreiro, vendo-se na obriga de o matar. Setanta comprometer-se-ia a fazer de guarda a Culann por ocasionar a morte do seu cão e foi por isso pelo que adoptou o nome de Cuchulainn: o cão de Culann.


O professor André Pena Granha diz ao respeito: "Setanta "Caminhante" e "Ogmios" o caminho são uma mesma coisa, representa ao solar deus no seu decadente e psychopompos aspecto. A acidental' morte do cão de Culann intensifica o caracter psychompompos. A última fase do Deus, como a de Odin, é a sua morte, defendendo aos seus colegas. Tanto se ata à árvore para morrer lutando, quanto os seus laços servem logo para arrastar aos seus colegas caídos em combate ao Além". Blanca García-Fernández Albalat diz ao respeito "É muito possível que existisse um vínculo muito forte entre Ogmios e Cúchulainn, pelo menos de tipo funcional. Cúchulainn é filho de Lug do mesmo jeito que Hércules é de Júpiter, e por outra parte, Ogmios na Gália é qualificado de Heracles”.

Voltando ao Echtra Nerai, achamos muitos aspectos dos que falamos no anteriormente. Nesta noite, Nera, leva aos defuntos á procura duma petição ao mundo dos vivos. Mas só podem aceder à terceira casa, o último passo do sol, o da decadência do astro mas também pode ter a ver com as mágicas atribuições deste número. O paralelismo do morto é o mesmo dos disfarces, de pintar-se a cara com chamiços no Magusto e pedir comida pelas casas, é o facto de dar uma oferenda as Ânimas a cambio da tranquilidade (a parte pelo todo). Infelizmente, na historia de Nera, o enforcado não ficou contente pois considerou que a agua que lhe deram de beber não era viável. Depois Nera tem uma visão e acesa ao mundo do Sidh, onde supostamente estaria a sua gente decapitada. Para entrar, acede por uma cova, uma forma de aceso ao mundo dos mouros como conta a lenda da "cova da coruja", o sidh galego. Já dentro, Nerai é aceitado ainda que tem a obriga a levar lenha. O guerreiro inclusivamente chega a casar lá. Já sabemos que os galegos que casam com a moura ficarão com ela no grandioso mundo dos mouros. Volta de novo a Ráth Cruachna, com um tempo que não se corresponde com o passado no sidh, alteração que também se produz na mourindade. Finalmente a sua gente acesa a este mundo, vence, e leva três tesouros. A procura dos tesouros são é constante da mitologia galega, sempre ao redor das mâmoas e dos castros, e no contato com os mouros.

Acho de interesse fazer de novo uma reflexão com respeito à etimologia do Magusto. Como apontei anteriormente sobre o Sámanos e o Magusto, Mag é um termo que faz referencia a achandar ou chaira. A chaira é para os povos celtas uma alegoria do mar, o qual representa ao Além. É por isso que as Óenach de Irlanda ou as Oinakoi da antiga Kalláikia se faziam em lugares de chãos. Mas essas chairas estavam num lugar elevado e fronteiriço. Precisamente essa relação existe na mitologia irlandesa com a designação do Além como Mag Réin, a chaira do mar. Se o Magusto se faz em outeiros, lugares fronteiriços e visíveis desde vários pontos duma ou varias paróquias, isto leva-nos a este carácter sacro de chaira e altura como comunicação com o Além. Pois bem, se a característica do Magusto é a sua realização nestes encraves, poderíamos estar a falar da raiz Mag como chaira com estas conotações?. Temos também o elemento do fogo: Ustus, enceso pelos druidas na óenach de Tara. Mas também não podemos excluir a hipótese de que estejamos ante um termo que provenha duma etimologia cruzada com umas características que definem o festejo: Mag (celta) como chaira; Mago (latino) como druida e depois o elemento do fogo.

3-A pervivência das divindades condutoras de Ânimas na religião e mitologia galegas

Estamos a falar portanto de que na antiga Eire e na antiga Kalláikia não só existiram os mesmos festejos mas também uma mesma base mítica com semelhante simbologia. Bândua é um guerreiro, um deus relacionado com as fratrias galaicas, mas também com o deus Oghmios. Essa relação também existe em Nerai, um valente guerreiro que é capaz de viajar entre o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos, do Sidh. Finalmente, diz a história, Nera ficará no Sidh até a fim dos tempos.

Mas todo isto do que falamos não ficou no passado. Há evidências as que apontam a que São Trocado ou Torquato, santo ao que se lhe rende culto num monte duma paróquia de Bande, posse ser a forma cristianizada de Bândua. As relíquias deste santo, acham-se, supostamente em Santa Comba de Bande.


Nesta mesma igreja, existia um ara consagrada a este deus, hoje desaparecida. Temos de observar que no irlandês antigo, “torc” equivale a javali. Na Península Ibérica achamos o epígrafe TVRCAVDI, quer dizer "rico em javalis". Portanto, a nomenclatura deste santo pode-nos remeter novamente à relação entre  o javali, o guerreiro e a fortaleza, presentes em Nera e em Bândua. Mas Torquato, tem a ver com "portador de torques".


Outro aspecto do deus, é a relação com o carácter militar do torques, traçando uma relação portador-divindade guerreira. Esse vínculo está testemunhado em alguns epígrafes, entre os quais está o de Fornos de Algrodes (Beira alta, Portugal) que diz "tatideaicus" (pai dos condecorados) .

No que diz respeito de Oghmios e a condução de Ânimas ao Além não podemos finalizar este artigo sem falar de certas aparições nocturnas: A estântiga, companha, estadeia, hoste etc.

Na mitologia galega do S XX-XXI ainda temos presente o carácter deste deus. A companha aparece como uma comitiva de espíritos que nos pode levar com ela no seu vagar eterno. Em algumas ocasiões, a comitiva aparece guiada por um fantasma alto chamado " A Estadeia". Este fantasma é provavelmente a herdeira de Oghmios-Bândua, deus psycopompo.

Outra evidencia temo-la ao redor da crença de que a hoste pode ir dirigida por Bode .A hoste é um exército de almas, uma das aparições da Nossa Terra, tal como se iriam os espíritos das antigas fratrias galaicas. No caso de Bode acho que se pode tratar do nosso Bândua. Há que lembrar o carácter de ligação *bhend e de liderado de fratrias. Os autores do magnífico "Dicionário dos seres míticos galegos" associam a Bode com Odin; Wode ou Wotan. A similitude entre Bândua e Odin é evidente e mais quando os celtas e germanos são povos próximos, mas acho que há que ter em conta a hipótese de que Bode seja em realidade Bândua. Em algumas ocasiões estas comitivas aparecem nos lindeiros paroquiais, nos velhos territórios sacros celtas. No seu percorrido aparecem nas encruzilhadas, como os "lares viales". Não há muita dúvida com respeito a que estas aparições semelhantes ao “ankou” bretão ou a Sluagh escocesa  são a lembrança dos guerreiros conduzidos por Oghmios ou Bândua  que agora saem na sua eterna marcha ao cair a noite. Mas isso, caros amigos, já é outra historia.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Do Sámonios ao Magusto: Uma porta aberta ao Além




Por David Outeiro


A chuva faz-se cada vez mais frequente, a friagem começa a inundar as moradas e o sol e a luminosidade míngua dando passagem ao tempo das trevas. Finaliza a época das colheitas, dos frutos, as carvalheiras e fragas mudam a sua cor anunciando o seu longo descanso enquanto a névoa flui entre as atlânticas paragens. O ano celta chega ao seu fim de novo, neste ciclo, nesta roda que é a vida. Aliás, grandes festejos seram realizados ao longo das terras celtas posto que é o momento de fazer um recebimento. A barreira que separa o mundo dos vivos do dos mortos é cada vez mais sutil. Finalmente a barreira dissipa-se e as Ânimas dos devanceiros voltam connosco neste celebração que é o Samhain ou Samónios. Grandes fogueiras alumeiam a obscuridão nos cúmios destas terras, inclusivamente as caveiras semelham voltar a vida com a luz que desprendem. Os devanceiros já estám aqui de novo, estais preparados para recebê-los?

Durante as datas ao redor do 1 de Novembro, os celtas acudiam a celebração duma das grandes óenach. Este tipo de festejos consistiam em grandes assembleias religiosas, políticas e rituais que tinham lugar num território fronteiriço e com presença de tumbas. É por isso habitual que nos territórios de celebração haja grande quantidade de túmulos megalíticos posto que para os celtas era necessário lembrar os devanceiros e recriarem as façanhas dos tempos míticos nos que teve lugar a génese do seu povo. Como não podia ser doutro jeito, na Galiza contamos com muitas evidências da celebração deste tipo de festejos por causa da existência de múltiplos encraves que cumprem ditas características. Também existem epígrafes que mostram esta tradição, tal é caso de "Coso Oenaego". Acreditava-se que neste tempo e nestes lugares, o mundo do Sidh, o Além irlandês é que se abria. Esta abertura permitia que os espíritos que habitavam o mundo inferior, o dos túmulos, saíssem ao exterior e pudessem interagir com o mundo dos vivos. Na Galiza temos o seu equivalente no mundo da Mouramia, o mundo inferior dos mouros. Tal e como apontamos noutro artigo, o termo que designa a esta mágica gente, poderia provir da voz celta MWROS que designa aos mortos.

Na antiga Irlanda existia uma grande óenach para festejar o Samhain; a Óenach de Tara. Este lugar era a residência do Ard Ri, o rei supremo de Irlanda. O seu caráter de lugar funerário está bem testemunhado pelo grande enterramento de corredor do 2000 a.C. que foi empregado até a Idade do Bronze ainda que esteve habitado desde o 4000 a.C. Neste lugar foi achada a Lia Fail, A Pedra do Destino que berrava quando o legítimo rei de Irlanda a pisava. Uma obra do 1722 chamada " Árbol Cronológico de la Santa Provincia de Santiago"  de Jacobo de castro, fala da origem galega da Lia Fail assim como também da origem galega dos irlandeses. 
Lia Fail do Outeiro de Tara (Irlanda)
Este  era o lugar sacro da rainha-deusa Mebd com a que o futuro rei de Irlanda teria de coabitar com ela sexualmente para aceder o trono. Era o ban-feis, a união do rei com a deusa da soberania. Outras óenach semelhantes são as de Cruachu, onde se achava uma cova que segundo a crença é uma entrada ao Além e Emhain Macha. Esta última está relacionada com a deusa Macha que forma uma tríade com Mórrigam e Babd; deusas "escuras" e da guerra. Foi também durante o Samhain quando Morrigam teve um encontro sexual com Dagda, antes da batalha de Cath Maighe Tuireadh contra os Fomorianos. Quando se produziu o encontro, Morrigam achava-se lavando num rio, mantendo um pé a cada lado. Esta deusa que aparece nos velhos escritos da Irlanda não é outra que a chamada Lavandeira que aparece  na mitologia galega  com as mesmas caraterísticas, como um temido mal agoiro.

A celebração herdeira do Sámonios na Galiza é o Magosto ou Magusto. Com respeito a presença do termo Sámonios na antiga Galiza, Tomás Rodríguez comenta:

"Assim e tudo convêm saber que na Galiza temos o topónimo do mosteiro de Samos, antigo "Sámanos" (documentado), que segundo os filólogos provém do céltico e significa "reunião, junta de gentes, assembleia". Tem a mesma raiz que Samhain ou que o galo Sámonios (documentado no Calendário de Coligny), que se refere ao mês no que começa a metade escura do ano, quando as portas estão abertas para mortos e vivos, que se misturam numa grande festa documentada ainda nos séculos iniciais do cristianismo medieval, e cristianizada como Todos-Os-Santos e Fieis Defuntos".

Segundo afirma o Tomás, o termo Sámanos podemo-lo achar em documentos do ano 785 em Samos: "monasterii samonensis", "ad dominos de casa de Sámanos" entre outros. Esta data pagã seria cristianizada, portanto, com o nome de Todos-Os-Santos (1 de novembro) no S IX e o dia seguinte no S XII como Dia de Defuntos. A pesar disto, na Galiza sobreviveu com o nome profano de Magosto. O José Manuel Barbosa num artigo por ele publicado em 2004 diz ao respeito do termo:

"Ao nome de Magusto têm-se-lhe dado várias origens etimológicas. Dentre elas a de “MAGNUS USTUS” que vem significar algo assim como “grande fogueira”, donde MAGNUS é grande e USTUS, queimado, ardido, em particípio passado do verbo “Uro”, arder, queimar. Pode ter umha certa lógica mas nós quereríamos propor outra desde aqui que tem a ver com as palavras “MAGUS” feiticeiro, bruxo, mago e “USTUS”. A maioria das palavras em galego-português provêm do acusativo latino que neste caso seria “MAGUM USTUM” donde seria mais fácil explicar a deriva para “Magusto”, e mesmo em dativo “MAGO USTO” literalmente “…ao ou para o mago queimado”.

Uma caraterística sempre presente no Magusto é a de fazer fogueiras nos cúmios dos montes, lugares inabitados e visíveis desde vários pontos da paróquia. Estas são também as caraterísticas próprias dos santuários celtas e galaicos: territórios inabitados e fronteiriços. Mas se nos perguntamos pela origem destas fogueiras e da possível relação do termo com um "mago" temos de consultar novamente as fontes irmãs, as irlandesas. Uma cita sobre a óenach de Tlachtga de Almagro Gorbea pode-nos dar luz:

"Tlachtga, umas das grandes óenach da Irlanda, foi nomeada assim para honrar a maga de Tlatchga, filha de Mugh Ruith, o archi-druida de Irlanda, de quem aprendeu muitos conhecimentos secretos (...)". O ponto culminante das cerimónias nesta óenach, iniciadas pelo deus Lugh, segundo se acredita, era o ato de acender o lume sacro de inverno na véspera da noite do 1 de Novembro, Samhain, começo do ano novo, realizado no cúmio de Tlachtga pelos druidas da Irlanda".

Existia a proibição de acender lumes no país enquanto este lume sacro de inverno estava aceso. A partir dele teriam de se originar os demais lumes particulares de cada casa. Citando ao Prf. André Pena Granha:

"Os druidas, como logo fizeram os curas no dia da Candelária, apagavam os lumes das casas e acendiam-nos novamente com o lume sacro do altar, cobrando um imposto ou taxa a cada fogar -origem do imposto medieval da fumádega-. O primeiro de novembro, os labregos também pagavam impostos aos senhores".

Mas este último autor também nos sugere outra etimologia para o Magusto. Segundo ele, Magusto é um composto indo-europeu ou proto-celta que consta de dois elementos. A primeira parte é MAG, raiz de esmagar (de EX-MAGARE). Dita parte está presente em Mag Tuiredh como planície do combate mas também no epígrafe "CROVGEAI MAGAREAICOI"(Lugar de sacrifício em Lamas de Moledo) com um "Outeiro da Maga" nas suas imediações. Temos outros topónimos como  Magalofes, Magarinhos, Magám/Magão. No caso do Magusto, o que é esmagado será o ouriço para tirar dele o fruto da castanha. É portanto o segundo elemento o que varia."

Temos de ter em conta, em relação as datas, que foram objeto de modificação. Com o trespasso do Calendário Juliano para o Gregoriano omitiram-se os dias que iam do 5 ao 14 de Outubro de 1582. Isto quer dizer que o Sámonios se corresponderia com o 11 de Novembro do Calendário Gregoriano. O atual. Há que apontar que enquanto o Dia de Todos-Os-Santos se trespassou a nova data, a festa do Magusto permaneceu celebrando-se em dias posteriores posto que em muitos casos continuou com a velha data do Calendário Juliano. Isto é patente sobre tudo em Ourense e nas comarcas do interior do país. Esta data corresponde-se com o São Martinho e a sua vez com a matança do porco como aprovisionamento para o inverno; "a todo porquinho lhe chega o seu São Martinho"...diz o refrão. Em relação ao Samon/Samrad, Miranda Green comenta:

"Tinha lugar uma grade assembleia em Tara, e a origem do festival pôde ter estado relacionado com o cercado e a seleção de animais para a matança, o aprovisionamento ou a cria invernais".

Outeiro de Tara (Irlanda)

Mas há mais evidências que nos permitem relacionar a matança do porco durante o San Martinho com as celebrações celtas. Eis outras citações de interesse:

"San Adamnan afirmava, no século VII, que se cevavam durante o outono grande quantidade de porcos destinados a ser matados ao principio do inverno na festa de Samhain".

"A carne do porco e o vinho a través da embriaguez, concedem a passagem á eternidade".

"O essencial era, por outra parte, que houvesse bebida e carne com profusão, fazendo do festim dos homens uma imagem tão exata como for possível dos deuses" (Le roux,Guyonbarc´h.2003:49-50).

"Consumia-se ritualmente a carne dum animal consagrado a Lugh, nesta festa onde os guerreiros se reuniam para exibirem os seus trofeus, contarem-se as suas façanhas e depois de estar bêbados disputarem pela sua porção de herói" (2003:52).

Apesar de que não se costuma contemplar, é importante observar que este festejo coincide com a temporada dos fungos. Como bem sabemos, os celtas, ao igual do que outros povos indo-europeus, conheciam o efeito enteógeno dalguns fungos e plantas. Como apontamos noutro artigo, os fungos enteógenos provocam um estado alterado de consciência que era interpretado como um contato com o Além. Mantenho que com probabilidade nestas datas também se aproveitasse o efeito enteógeno dos fungos outoniços. Tal e como se tem achado em jazigos arqueológicos em relação com povos celtas, existiu um uso dos enteógenos (em ocasiões possivelmente misturados com o álcool) durante festejos rituais. Isto faz-se mais evidente se nestas datas se procurava uma conexão com os deuses e os devanceiros (a mente inconsciente), assim como o efeito enteógeno da alteração espaço-temporal.

O lume é portanto um aspecto indispensável da celebração do Magusto. Para os galegos trata-se duma espécie de ser vivo ao que não se lhe pode cuspir nem fazer mal. Aliás o lume é uma ligação com o além. Isto foi testemunhado por Martinho de Dúmio no seu tempo (S VI) quando criticava o facto de verter pão e vinho ao lume como práticas pagãs. O antropólogo Manuel Mandianes recolheu o caso dum homem que lhe contou que quando lhes caia o pão, limpavam-no e comiam-no ou botavam-no ao lume. O lugar mais habitual para fazer o lume do Magusto é um outeiro visível na paróquia, um lugar inabitado e onde não se cultiva nada, residência das Ânimas e lugares característicos dos santuários galaicos. É importante deixar que o lume se vaia apagando só, pois segundo contam, as Ânimas que neste dia voltam do Além aproveitam para aquecerem na fogueira. É por isto importante não varrer de noite ou não fechar a porta subitamente para não lhes fazer dano. Na casa há que deixar a mesa sem recolher posto que as Ânimas também terão o seu banquete no regresso.
Magusto
 Mas os montes não eram os únicos lugares onde se celebrava o Magusto, inclusivamente se faziam comidas nos adros das Igrejas e no seu interior, acarão das tumbas dos devanceiros da paróquia. Esta prática foi criticada por um bispo de Mondonhedo: Frei António de Guevara que provinha de fora da Galiza e via no Magusto uma festa esperpéntica. A sua crítica (S XVI) diz o seguinte: 

[...] achamos ter costume em muitas partes deste nosso bispado que nos mortuários que fazem, e o Dia dos finados, que é outro dia de Todos os santos comem e bebem e põem mesas dentro das igrejas e o que é pior, põem jarros e pratos acima dos altares fazendo aparador deles. Ordenamos e mandamos que ninguém seja ousado nos semelhantes mortuários e honras e dias de finados comer nem beber nas igrejas, sob pena que pague cada um dous ducados e o cura que o consente quatro”.

Não há que dizer que este homem não conseguiu nada, posto que tal e como lhe disso um cura da Límia alta a Manuel Mandianes

“Aqui, o que menos importa são os Santos. Quem têm verdadeira importância, e são os protagonistas destes dous dias, são os mortos”.

Há na Galiza informação recolhida de práticas que nos lembram a realização de oferendas aos mortos realizadas nestas datas pelos povos celtas .Um destes casos foi recolhido por N. Tenório (La aldea gallega. Cádiz,1910):

"Na Godinha e nalgumas aldeias como Pungeiro e outras, conservam a prática de pôr o dia dos defuntos no cemitério, sobre as sepulturas dos mortos, um pão de duas libras e um jarro de vinho".

Outro aspecto que cumpre citar é o mencionado por Taboada Chivite (Ritos e crenzas galegas):

"Já no século XVI falam as sinodais de Mondonhedo que no Dia de Defuntos comiam os pobres os restos dos senhores, e castanhas".

Em Javestre varriam a lareira e deixavam, ao igual que durante a noite, boa comida e tantas lâmpadas de azeite como defuntos tinha a família. Portanto, o II Concilio de Braga do ano 572 presidido por Martinho de Dúmio não teve sucesso:

"Não está permitido aos cristãos levar alimentos ás tumbas" (Cânon LXIX).

Outro aspecto essencial é o assado de castanhas nas fogueiras. A castanha é um alimento vinculado ao Além do que também se alimentam as Ânimas já que está disponível no tempo da sua chegada. Existia a errada hipótese de que os castanheiros na Galiza foram introduzidos pelos romanos, mas acharam depósitos de pólen desta árvore muito anteriores a chegada deles. Contava um inglês chamado Swinburne que os galegos comiam castanhas na véspera dos defuntos (S XVIII) com a esperança de que por cada castanha consumida, se libertava uma ânima do purgatório. Também falava de que os nenos de Viveiro iam ao cemitério com um rosário de surrunchos (castanhas rociadas com anis). É curioso salientar o que uns alvanéis da Límia alta que abrem e preparam sepulturas lhe disseram a Manuel Mandianes:

“...nos restos dalgumas caixas temos achado castanhas que puseram as Ânimas velhas para as novas”.

Era comum que durante estas celebrações, os jovens se untaram a cara com chamiços do lume. Ao chegarem de novo a sua aldeia, os velhos que saiam pelas janelas diziam-lhes ao não os reconhecerem: "pareceis entrudos". Os entrudos ou entroidos simbolizam os habitantes do outro mundo, assim como o disfarce. Tal e como vimos em artigos anteriormente escritos sobre o xamanismo, era comum que os xamãs se vestissem com peles de animais para fazerem a viagem ao mundo dos espíritos. O disfarce seria uma forma de vincular ao xamã com o animal espírito e era também uma forma segura de entrar nessas outras realidades, dando lugar aos seres teriantrópicos das covas paleolíticas. Em Quiroga existia o costume de disfarçar-se durante estas datas com uma carouta com forma de caveira de melão (a qual tem relação com o crânio, do que falaremos posteriormente). Mas nesta volta dos jovens desde as fogueiras armava-se grande barulho e costumavam vir petando nos telhados de zinco pelo que também os velhotes lhes chamavam "entroidos". Era uma data na que se toleravam certas atitudes que não se permitiriam noutras épocas do ano. Isto não seria de estranhar se a festa provém das óenach de Samhain na que o rei tinha de coabitar coma deusa da soberania, na que se faziam grandes festejos e na que as frátrias guerreiras estavam presentes. Cito novamente a André Pena Granha:

“Era quando o cório, "banda armada" de moços solteiros da tribo, celebrava as mascaradas como uma mesnada fantasmal e se punha temporariamente à margem da lei".

 Ainda assim, estes festejos supunham o fim do período de atividade militar pelo que acho que o maior perigo nestes dias era o das Ânimas que voltavam do Além. Este episódio é evidente na narração da Echtra Nerai do que falaremos mais adiante.

Outro costume interessante é o duma prática semelhante a do "Trick-or-treating" do Halloween. Citamos novamente o bispo Frei António de Guevara:

“Constou-nos pela visita que o dia de Todos os Santos e o dia seguinte de Defuntos andam todos os moços da freguesia a pedir pelas portas e dão-lhes pão e carne e vinho e freixões e pijões e outras cousas, e que pedem assim os filhos dos ricos que os pobres; e por ser mais este rito gentil que cristão , ordenamos e mandamos que, de aqui em avante, nenhum moço vaia aqueles dous dias de porta em porta a pedir, senão que o beneficiado, o reitor e o “primiclero” e outro que nomeasse a freguesia peçam aquele pão e todo o demais que lhes deram ou repartam na igreja o Dia dos finados entre os pobres e necessitados, sob pena que o pai ou a mãe que enviara o seu filho a pedir aqueles dias pague mil maravedís[...]“.

Também na “Etnografia Mindoniense” de Eduardo Lence Santar se diz:

“Em Mondonhedo, o dia de Defuntos, pícaros, homens e mulheres pobres petam nas portas das casas e dizem: E não nos darão o Migalho? O Migalho é uma esmola. Se não a dão, caminham todos como foucinhos, refonfoneando e até petando nas portas e espelejando à gente; mas se a dão, os homens e as mulheres dizem: Vá pela alma dos que deixaram pão à casa! Nossa Senhora dos Remédios os tenha da sua mão!
Na rilheira de Cesuras pede-se o migalho uma semana depois dos Defuntos, e dão a cada um seis ou mais espigas de milho. Muitos ao recolhê-las, chucham-nos e dizem: Deus te regale no céu e na terra! Vá pela alma dos defuntos todos da casa!” (Etnografía Mindoniense; Eduardo Lence Santar. Follas Novas 2000. Compostela).

O samhain era portanto um tempo no que as Ânimas se achegavam aos castros e no Magusto as Ânimas voltam as aldeias. Mas esta volta pode ter certo perigo para os vivos posto que algumas Ânimas podem ser malignas. A prática citada anteriormente por Frei António de Guevara remete-nos a uma antiga crença. Nestes dias os jovens  representavam os espíritos do Além. 

Ao se achegarem à população, às Ânimas "reflexadas" naqueles que se disfarçarem, os moradores do lugar deveriam de entregar uma oferenda em troca da sua tranquilidade. Para afastar certos espíritos era necessário dar um emprego determinado aos crânios. Os antigos povos celtas praticavam a famosa caça de cabeças. Deste jeito, os guerreiros mostravam com orgulho os seus trofeus de guerra que lhes serviam para obterem o poder do inimigo abatido e acrescentar o seu próprio. Os jazigos arqueológicos mais importantes dentro do mundo celta são o das grandes concentrações de crânios reais ou de pedra de Entremont e Roquepertuse, na antiga Gália. 
Cabeças Cortadas de Entremont
No contexto que nos interessa, os crânios empregavam-se para defender os castros e as casas das perigosas Ânimas que voltavam para partilhar o seu tempo com os vivos. Os celtas colocavam para a sua proteção as caveiras iluminadas ao redor das muralhas. Esta prática está bem demostrada entre os antigos galaicos tal e como põe de manifesto os jazigos de cabeças talhadas em pedra muito similares as das zonas da Gália citadas com anterioridade. No caso das galaicas, têm uma feição que sugere que puderam ser empregues para colocar nas construções dos castros. No castro de Chão Samartim, foi achada uma cista que continha o crânio duma mulher na entrada do castro com vontade protetora. É interessante apontar a lenda que diz que a Rainha Lupa está soterrada na porta do Castelo de San Júrgio. Como aponta Manuel Gago num artigo do seu Web, a tumba está numa estranha muralha que protege o alto do monte. Provavelmente estejamos de novo ante algo similar. 

Com o tempo, esta prática chegou até os nossos dias transformada no talhado de cabaças com forma de caveira. Prática que têm um senso semelhante a feita pelos galaicos: afugentar as Ânimas mas hoje também assustar as pessoas. As cabaças costumam se colocarem ao redor dos campos-santos (Boembre, Viveiro, Vimianço, Negreira...), nos cruzeiros e nas encruzilhadas. As cabaças galegas têm a caraterística de apresentarem dentes feitos com ramalhinhos assim como um rosto de aparência triste. Esta prática também se leva a cabo no Ortegal, Ferrol, Rias Baixas, Ourense e especialmente em Cedeira por causa do grande trabalho realizado por Rafael López Loureiro para recuperar e espalhar este velho costume. 
Também se acha esta prática em Minho e Trás-os-Montes assim como municípios limítrofes de Astúries. Em Germade faziam as chamadas "bonecas" com beterrabas ou nabos, sem luz e decoradas com pelos de milho. Temos de ter em conta que a cabaça é originária de centroamérica. Por causa disto a talha de nabos existia anteriormente à talha de cabaças.
Não poderia finalizar este artigo sem fazer menção a Portalém ou Portelinha, essa porta pétrea que no Monte do Seixo (Terra de Montes) permite a comunicação com o Além. O enclave do Monte do Seixo foi bem estudado pelo G.E.E Serpe Bichoca, composto por Rafael Quintía, João Bieites e Calros Solla. Este lugar, foi com toda segurança um óenach (ou Oináikoi) no passado .É ali onde se acha uma curiosa formação pétrea que nos lembra a uma porta: Portalém. No dia do mês de Santos, correspondendo-se com o Samhain, aquele que queria obter o conselho dos mortos deverá achegar-se até esta "porta dimensional", passar o portelo e levar uma oferenda de pão, vinho ou uma candeia. Uma vez realizada a oferenda poderá obter a resposta daqueles que nos deixaram. Mas a resposta não poderá ser revelada aos demais porque como diz  a lenda, volvera-se-lhe rouca a voz de fazê-lo. Já sabemos, como apontamos em anteriores artigos, que aqueles guerreiros celtas que voltavam do Além perdiam a fala.


Nos últimos anos está-se a recuperar um festejo que semelhava esmorecer. Quando aqueles que lembrando velhos tempos propuseram-se recuperar a prática do talhado de cabaças, entre outras, olharam o passado e toparam com que o Samhain (denominação irlandesa actual do Sámonios do antigo céltico) ou antigo Samaín teria de ser o nome de revitalização do festejo. É por isso frequente nestas datas escutar novas em relação com a recuperação da Samhain/Samaín na Galiza. Isso, quando não se nos americaniza com a importação do Halloween, festa bem difundida desde a potência Estadunidense por causa da influência dos imigrantes irlandeses que lá chegaram no passado. A origem genuína do Halloween temo-la portanto nesta beira do atlântico ocupada por povos celtas, entre eles o nosso. Seria complexo apontar a sua origem, no passado longínquo. Mas  é provável que uma proto-ideia do festejo já surgisse na faixa cantábrica sendo trasladada posteriormente às Ilhas com o povoamento colonizador proveniente do N.O peninsular ibérico (que já levaria a sua religião). Quem sabe se os crânios de animais colocados com vontade nas covas paleolíticas franco-cantábricas não estariam para proteger já os vivos dos espíritos malignos. Mas hoje, milhares de anos depois existe na Galiza uma festa com o nome de Magusto, herdeiro legítimo do Sámónios. 
Calendário de Coligny onde aparece o nome do mês de Sámonios
Não precisamos de recuperar nenhuma festa celta pois já a temos connosco. Se bem há práticas que se perderam ao largo do país, muitas delas sobreviveram nalgumas zonas. Partindo destas práticas locais, com segurança distribuídas em tempos não muito longínquos pela Galiza, poderemos impulsionar de novo o Magusto com toda a sua essência. Reivindico portanto para estas datas o nosso céltico Magusto ainda que não podemos passar por alto um dado de interesse ao que já apontamos. Apesar de que o Magusto seja a festa herdeira do Sámanos galaico, o nome toponímico derivado directamente deste festejo é o de Samos, nome do lugar onde a dia de hoje há um mosteiro ou lugar de culto que provavelmente tenha as suas raízes na noite dos tempos.

As portas do Além estão-se a abrir novamente, estais preparados para receber os espíritos dos nossos devanceiros?

Que o lume dos devanceiros prenda por sempre nos nossos outeiros e ilumine na escuridade da noite do nosso porvir!


Referencias:



Samaín: A festa das caliveras (Rafael López Loureiro)
O rio do esquecemento (Manuel Mandianes Castro)
Antropoloxía de Galicia (Xosé Ramón Mariño Ferro)
La feria-fiesta-asamblea óenach de Irlanda y sus posibles paralelos en la antigua hispania céltica (Manuel Alberro)
O Magosto, rito funerario (Manuel Mandianes Castro)
El Mundo de los druidas (Miranda J. Green)
Deuses, mitos e ritos do Monte do Seixo (Rafael Quintía)


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