terça-feira, 23 de abril de 2013

O culto às Deusas Mães Galegas


Por Carlos Solha

Aproveitando o relanço da Semana Santa -Luceira Túrvia, como a nomeiam os canteiros da cerna, pois “túrvios” somos os pecadores-, espremendo-lhe, digo, todo o sumo ao lazer, fiz repouso em Cerdedo e ali partilhei um gostoso jantar adubado com sobremesa paroleira. Muito dão de si os latriques cafeinados.
Quase ainda não tinha engolido duas xícaras e um sorvo dum Porto, quando uma das comensais, bem aproximada aos setenta, soltou uma expressão que fez esticar as minhas orelhas do etnógrafo lupário e as daquele neno que fui.
A informante involuntária andava na porfia de apaziguar um pequeno malandro, uma miga consentido. Esgotado o repertório da “supernanny”, a avó, revirando a criança, espetou-lhe: “Se não te aquietas, ponho-te fora para que te leve tua mãe galega!”.
Olhem, eu não lhes fui um santo e meu irmão pequeno, também não. Na aldeia, andávamos, entre outros apelidos, pelos Zipi-Zape... Escuso portanto, oferecer ao leitor muitas mais explicações.
Sendo como éramos afilhados do demo, muito sabíamos de ameaças. Que eu lembre, minha mãe tinha foro com o homem do saco, com a bruxa do moinho dos Montinos, com as aranhas, com o lobo, com o tio Gardunho, com os bichos peludos, com a Sisocorda, com o homem das barbas, com o cocão, com a Ramuda, com o Sacauntos... e, na casa, escutávamos chamar por eles a cada pouco.
O ritual da invocação sempre se acompanhava do brandir duma chinela, duma escumadeira ou duma vassoura. Costumes que a moderna sociedade foi extinguindo, pelo medo ao que dirão. Hogano, leva-se mais o do “colegueio” e a negociação inter pares. Intuo que os enxebres assusta-nenos, a poder de reclui-los no ostracismo, já devem ter procurado outras ocupações, ou outras latitudes.
Mais, amentar a “mãe galega” para amedrontar um menino era-che uma circunstância novedia, daí que a minha má consciência de pilhabão optasse, de primeiras, pela alerta “Defcon 1”.
Uma vez racionalizada a situação, sobreveio-me a impressão de ter escutado uma das muitas expressões ofensivas com as que os de fora, batujando no estereótipo, nos presenteiam cada pouco. Recomendo para o particular a leitura da coleção de ensaios intitulada “El gallego, Galicia y los gallegos a través de los tiempos (1985), da autoria de José Luís Pensado.
Era inconcebível que aquela avó reconviesse o seu neto chantando-lhe que, de não mudar a conduta, o ia botar à rua para que a sua verdadeira mãe –de nacionalidade galega- o aturasse. Mulher da vida?, filho de trás da silveira?...
Não me contendo, perguntei. Com o riso nos lábios, a mulher respondeu-me que o que acabava de ouvir era um dito velho e que sua mãe e a mãe de sua mãe também o empregaram nas retesias domésticas. Assim, mesmo, acrescentou que desconhecia o significado da locução e que, inconscientemente, fazia uso dela com o objetivo –infrutuoso- de endireitar os cativos que deixavam ao seu cuidado. Quando lhe enumerei a restra de assusta-nenos que empregava minha mãe comigo, disse-me que habitualmente eram requeridos também por ela, que toda ajuda era pouca para encarreirar as novas gerações: “Estes já não se assustam com nada, estão afeitos a ver de todo na televisão”.
Já na casa, procurei informação sobre a “mãe galega” e, suspeitando a demonização dum antigo númen indígena, após muito remexer, fui dar com o nº 3 de El Eco de Galicia (Revista Semanal de Ciencias, Arte y Literatura), editado na Havana em 16 de julho de 1882.
Na página 2 da nomeada publicação, reparei no titular “Las Madres Gallegas” e, assim que comecei a leitura do artigo, assinado por M. Esmorís, fiquei atordoado:
En casi todo el territorio de Galicia puede decirse sin temor que no hay madre alguna que no haya intimidado alguna vez a sus inocentes hijos con la legendaria frase de “Busca a tu madre gallega”. Cuando sucede esto, es que el niño ha cometido alguna falta reprensible y después de regañarle fuertemente, si aún no se muestra arrepentido, entonces se le lleva a la calle, se le cierra la puerta de la casa y entre otras amenazas, aún hoy se usa la de “Busca a tu madre gallega”.

Como podem imaginar, não desapeguei os olhos do texto até a sua conclusão. Acrescentamos, portanto, umas passagens do mesmo por considerá-las de grande interesse:
As “Mães Galegas” trazem a sua origem das divindades célticas sob cuja proteção se punham os celtas, designando-as com o nome do terreno que ocupava cada tribo [...] Com o transcurso do tempo, os homens estudiosos e afeiçoados ao conhecimento das antiguidades, a força de investigações e de trabalho, chegaram a nos provarem com dados muito seguros, a existência das “Mães Galegas”, que foram representadas ordinariamente por três donzelas, levando nas suas mãos, flores, frutos e pinhas.
Murguía o ilustre historiador galego, que possui muitos e eloquentes dados em matéria de antiguidades, traz na sua obra “Historia de Galicia”, copia de uma inscrição que foi achada perto da Crunha e diz assim: T. Fraternus / Matribus / Gallaicis / v. s. l. m. “Tito Fraterno pagou de boa vontade o seu voto às “Mães Galegas”.
As “Mães Galegas” são divindades da mitologia céltica a cuja intervenção e poder nos destinos da humanidade deveram render culto das suas crenças os idólatras, nossos progenitores, avezados ao fatalismo e à heroicidade por temperamento e pela educação do povo do qual procediam...
Desde aquela altura, os celtas galegos, cedendo no entanto ao contato contínuo e preciso de outras tribos irmãs [...] legaram a sorte dos seus filhos às “Mães Galegas”, e a través daquelas gerações que variavam em costumes e em crenças, sem se darem conta elas próprias, ficou, apesar dos conquistadores, como uma reminiscência, como uma vaga lembrança de primitivos dogmas [...] quando duma forma ou de outra, fazem uso do dito vulgar “procurar a tua mãe galega”.
M. Esmorís, autor do artigo, vincula a inscrição votiva à cidade da Crunha, mas, consoante as minhas pesquisas, a vila onde se achou o epígrafe lapidário foi “Coruña del Conde”, na atual província de Burgos (prédios da antiga Gallaecia). Consultem-se no que diz respeito a Júlio Núñez Marcén e Álvaro Blanco (2002) ou o artigo de Joaquín Gómez-Pantoja titulado “Las Madres de Clunia” (1999). 
Em Núñez-Blanco, lemos: O mais interessante é o sobrenome que as “Matres” receberam em esta ocasião, “Gallaicis” e que parece obvio relacionar com os epítetos de caráter étnico ou de “nacionalidade” [...] Longe de se tratar de dedicatórias tópicas [...] parece mais lógico explicar este tipo de testemunhas como uma tentativa por parte de um “estrangeiro” de “atrair sobre si a benevolência das deusas protetoras do seu povo”
O lugar onde se erigiu ou achou o altar tem uma importância relativa. O substancioso do achado acouta-se ao contido da inscrição. Um galego de há 2.000 anos, longe ou não do seu lar, encomendando-se às deusas, às nossas Mães Galegas.
J. Gómez-Pantoja, no citado trabalho, enumera os atributos com os que habitualmente eram representadas as Deusas Mães: “cestas de frutos, cornucópias, pão, moedas...”, acrescentando que estas ctónicas divindades são advogosas da fertilidade, da prosperidade, dos negócios..., atingindo as virtudes salutíferas doutras deidades aquáticas (ninfas): fertilidade, fartura e saúde. As Deusas Mães vinculavam-se aos mananciais mineiro-medicinais, aos ilhós salutíferos, às burgas, muito abundantes na geografia galega, “benéfica exsudação das divindades da Terra”.
A Mãe Galega é uma deusa trinitária. A tríade divinal que, desde o alvorecer do nosso tempo, rege no tradicional panteão galego, revela-se em Cerdedo, não só na fraseologia popular, mas também no folclore petrificado, adubo conatural deste bento território.
Cumpre, daquela, lembrar a tripla manifestação da Moura já consignada para o monte do Seixo, montanha da prodigalidade: a Moura Pirocha, a Moura do Castro Grande e a Moura da Laja-Moura.
A Moura Pirocha, donzela, arquétipo da pródiga primavera; a Moura do Castro Grande, a mulher madura, adscrita ao verão, ao tempo da colheita, e a Moura da Laja-moura, venerável anciã, a Velha, sábia oraculária, identificada com o inverno: “Ainda vai vir muita chuva, que brilham as pedras do Seixo”, diz-se em Cerdedo.
A Moura Pirocha, explícita, tombada ao cumprido sobre a sua almofada de pedra; a Moura do Outeiro do Castro, núbil, casadoira, custódia de riquezas nunca inventariadas; a Velha da Laja-Moura, fazedora do arco do céu que, fincado naquela fatídica peneda do monte de Meilide, abaixa o lombo para abeberar nas aguas do poço Fumegas, góio do rio do Seixo.
A mesma Moura, humanizada baixo o antropónimo Maria: Mari Diz, a costureira afogada no tremedal da Mulher Morta, em Gestido; A Maria Diz da Serra da Mulher ou do Cordal do Testeiro (Forcarei); a Maria Miguez da Cuinha de Vidoido (Cerdedo); a Maria Amena das lombas da Cima-da-Vila (Caroi-Cotobade); a Marimanta, a Marujaina; a Maria evocada no principiar dos melhores contos: “Em tempos de Maricastanha...”, aquela pretérita idade na que a Deusa Natureza acaparava toda a nossa atenção.
A Deusa Mãe Terra, uma e trina, a semelhança das três Marias que esconjuram o enganido infantil à roda dum cachopo carvalhão, na fronde da aldeia cerdedense de São Bernabeu (advocação substitutiva), ou de redor duma mesa propiciatória.
As Três Laranjiñas do Mar, as Três Mouras, as trigémeas da fonte das Donas de Vidoído (Cerdedo); Ana, Aureana, Ana Manana... Quem sabe se a expressão “Madre!” “Minha Mãe!” ou as suas castelhanizações “Mi madrinha!” (ou “Mimá!”) não serviram para exortar o seu valimento.
O culto á Deusa não é uma religião, mas ao contrário, é a porta do auto-conhecimento, como indivíduos, como povo. O dia no que os galegos lhe viramos as costas á Mãe Galega, e optamos pelo culto aos bonecos procissionantes, trocamos, abofé, os olhos pelo rabo.



Nota: As chamadas "Mães Galegas" ou "Matribus Gallaicis" estão no Corinium Museum de Cirrencester (Inglaterra). Das três Imagens de "Mães celtas" que neste artigo apresentamos, as "Mães Galegas" são as terceiras e últimas. As primeiras são as "Matres" de Bibracte, cidade do povo celta dos Aedui da Gália e as terceiras são as Aufanian Matrónae do templo romano de Görresburg, Nettersheim (Rheinisches Landesmuseum Bonn).


2 comentários:

afonso p c disse...

O culto á deusa nai celta Cailleach, Calaicia en Gallaecia, esta atestiguado tamén teofórico toponimicamente nos eidos chamados "Galegos, Céltigos", etc. Parabéns polo artigo que amosa, do trinitario da deusa, a súa faceta que, amedrentadora, lembra o seu aspecto, vencellada á noite, á lúa, o ctónico e telúrico tamén escuro, misterioso, estarrecedor, segredamente prohibido, tabú, sagrado, sobrenatural, como só explicabel a través da maxia ou o numinoso.

Slymount disse...

muito interessante. haveriam de conocer-se melhor nossas origenes comuns.

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