sábado, 18 de fevereiro de 2012

O galego já é oficial na União Europeia


Por José Manuel Barbosa

Já há mais de dezaoito anos, em 1994, algumas pessoas da AGAL tivemos possibilidade de conhecer o funcionamento do parlamento europeu e experimentarmos “in situ” a situação das diferentes línguas comunitárias graças ao convite à nossa Associação feito pela Coligação Galega(CG) liderada na altura pelo que foi europarlamentar José Posada.
Foi no mês de Março e na semana imediatamente anterior à Semana Santa quando um pequeno grupo de representantes da AGAL entre os que figuravam os amigos Jesus Miguel Conde, Carlos Garrido, atual Secretário da Comissão Linguística, Xavier Paz, José Manuel Aldeia, Laureano Carvalho, Rosário Fernandes Velho e um que isto vos escreve.

 Visitamos Bruxelas e com isto também as instituições europeias, e não vimos surpresa no facto de nos podermos defender no dia-a-dia na nossa língua. Não pelo facto tópico e folclórico de acharmos galegos por toda a parte -facto que nalgum caso se deu- mas porque o galego é conhecido dum ponto de vista académico como uma forma ou variante da língua que a romanística denomina “galego-português” e que internacionalmente se reconhece como “português”
Não são duas línguas, mas uma. Isso foi-nos útil para não nos deixarmos levar por complexos de nenhum jeito e entendermo-nos na nossa língua com a rapariga responsável do hotel no que moramos aqueles dias, sendo ela belga mas casada com um brasileiro. Também não foi surpresa o sermos atendidos por alguns funcionários do parlamento europeu na língua de Rosália na que se nos dirigiram quando nos ouviram falar entre nós, pensando que éramos portugueses (estou seguro que se souberem que éramos cidadaos do Estado Espanhol e galegos provavelmente dirigir-se-iam a nós em castelhano).

A alguém lhe poderia parecer uma surpresa que um companheiro de expedição e representante dum grupo ambientalista da Límia, o nosso amigo Manuel Garcia, apresentasse publicamente e no seu galego limego (ou limião) uma informação sobre a concentração parcelar na sua comarca perante o pleno do grupo parlamentar europeu do "Arco Íris", grupo dentro do qual estava o Eurodeputado Posada. Como bem se sabe, havia, e há umas cabinas de tradução simultânea que transpunham a fala do amigo Manuel Garcia aos diferentes idiomas dos distintos europarlamentares dos diferentes países que integravam aquele grupo. Quiçá ninguém se deu conta de que se isto fosse feito por um catalão ou um basco, ou um escocês...não poderia ter sido feito pelos tradutores porque essas línguas não pertencem ao grupo de línguas oficiais da União...infelizmente....mas é assim, cousa que não acontece com a nossa língua que sim é oficial. Por isso pode ser traduzido às outras línguas comunitárias.

Lembro que havia uma porta-voz escocesa, lembro um corso que interveio e algum flamengo... e todos percebiam perfeitamente o que o nosso companheiro expunha porque os funcionários de tradução reconheciam aquilo como uma das línguas oficiais dum Estado membro..., neste caso, reconheciam-no como português e faziam o seu labor transladando para inglês, francês, neerlandês, etc...
Tanto na altura como ainda hoje a informação que se verte sobre a situação da nossa língua na Galiza não chega a todos os galegos, pelo que é fácil acreditar que ninguém tivesse nem, ainda hoje, tenha muito conhecimento, nem consciência do que é o Informe Killilea, nem das cartas cruzadas entre o europarlamentar Posada e o presidente do Parlamento Egon Klepsch, nas quais se reconhecia o galego implicitamente como língua oficial por sê-lo o português, língua oficial dum dos Estados membros: Portugal.
Egon Klepsch
Essas cartas estão publicadas nas AGÁLIAS dos anos 1993 e 1994 e nelas se toma o assunto por causa da dúvida que alguns funcionários tinham em relação à língua do eurodeputado. Eles diziam que era português com um sotaque que eles não conheciam mas o Senhor Posada clarificou com argumentos históricos e linguísticos que aquilo era a mesma língua de Portugal embora com o sotaque galego das Rias Baixas donde ele é originário. Posteriormente e com a intervenção do europarlamentar irlandês Mark Killilea que reconheceu as variedades linguísticas da U.E. e do próprio presidente do Parlamento reconheceu-se que todas as intervenções do eurodeputado galego foram feitas numa variante da língua conhecida internacionalmente como “português” e portanto recolhidas no diário de sessões da Câmara.
Mark Kilillea
Há um tempo, quando governava o bipartido, víamos nos meios de informação galegos a notícia de a Espanha pedir para o galego o “status” de língua oficial dentro da U.E. e não pôde mais do que olhar a notícia franzindo as sobrancelhas. Veremos no futuro a mesma petição para o valenciano ou o para o andaluz?? Veremos isso para o valão, o francês da Bélgica, ou o alemão da Áustria? Veremos também na ONU essa petição para a língua dos norteamericanos diferenciada da dos britânicos?. Evidentemente a proposta não foi aceite porque dum ponto de vista internacional as falas galegas sempre foram reconhecidas como uma das variantes dessa língua ibero-românica ocidental conhecida historicamente como “galego” ou “galego-português” mas dum ponto de vista político conhecida com o nome de “português”.


Ora bem, estou certo que o flamengos da Bélgica não vão pedir algo assim para o flamengo porque já é oficial o neerlandês, língua comum a holandeses e flamengos, nem a haverão de pedir aos moldavos no momento em que entrarem na União a oficialidade do moldavo quando já dentro achem o romeno como língua oficial por ser a República de Roménia sócia de pleno direito desde 2007.
Já o eurodeputado Posada em 1994 e em 1999, e posteriormente o Camilo Nogueira desde o 1999 até 2004 fizeram o seu trabalho na nossa língua, gerando mesmo reações à contra de conhecidos políticos antigalegos que mesmo chegaram ao insulto. Dentro esses políticos salientamos o ex-alcaide da Crunha, Francisco Vázquez que denominou Camilo Nogueira de Nazi por falar "português" no parlamento europeu e com isso deixar de falar espanhol...
Isto faz que tenhamos a necessidade de dizer por se a nossa gente não se tem inteirado, que a Nossa Língua, a língua que Pondal denominou "Língua do grã Camões, fala de Breogão", a língua das Cantigas do único Império peninsular com Afonso VII e que assim se podia considerar na Idade Média, a língua de Castelão, de Risco, de Carvalho Calero...é já oficial tanto na sua versão lusitana como na sua versão galega, facto este reconhecido pelas instituições comunitárias. Com ela se trabalhou na Europa desde 1986, data na que os países da península Ibérica entraram de pleno direito na U.E., e com ela trabalham os deputados galegos bons e generosos que têm a Galiza na sua mente e no seu coração.

Ultimamente a deputada Ana Miranda em 2012 também está a usar a nossa língua no parlamento mesmo com dificuldades por parte dos tradutores de espanhol que desrespeitosamente não traduzem o que ela diz quando fala no seu galego natural, embora os funcionários que transladam para o inglês, francês, etc... não tenham qualquer problema. Se a nossa fosse uma língua extra-oficial a possibilidade de tradução seria nula...

Sabemos que o BNG tradicionalmente não se manifesta claramente em favor dum reintegracionismo prático e consequente, sabemos mesmo que apoiaram a ideia do bipartido de levar a cabo a “oficialização" do galego (RAG, entenda-se) obviando a realidade comunitária de reconhecimento do galego (português, entenda-se também) como língua oficial desde a passagem do eurodeputado Posada pelo parlamento. Aproveitando a presença do BNG no parlamento europeu, este é um bom momento para fazer pedagogia institucional e ensinar aos seus militantes, seguidores e votantes (e também os que não o são) que galego é português e português é galego com todas as consequências possíveis, mesmo normativas e geo-estratégias, e nao para seguir a política linguística do PP e do PSOE que querem "oficializar" o que eles denominam de "galego" para consumar a ruptura entre as falas galegas e portuguesas convertindo a nossa língua em carniça para o uniformismo castelhanófilo que rege o Reino da Espanha desde que este existe como tal.

Se a ideia é dar a conhecer a realidade linguística comum galego-portuguesa, parabéns, mas se a ideia do BNG é fazer coerente uma ideia de galego “de seu”, como parece que faz em boca da Ana quando quer meter a nossa língua na mesma saca do que o catalão, basco e outras ao querer "oficializá-lo"... e conceitualizá-lo implicitamente como diferente do português, acabará fazendo evidente a ideia que muitas pessoas têm de que o reintegracionismo bloqueiro, até agora, platónico é só uma via para conseguir votos dum eleitorado galeguista cada vez mais virado para o sentimento de unidade linguística galego-portuguesa e fará ver o BNG como mais um partido que joga contra a língua dos galegos.

4 comentários:

Gascon disse...

Antes o Posada ou o Nogueira falavam em portunhol. Agora a Miranda fala não se sabe se português europeu ou brasileiro. Em qualquer caso, nenhum deles pode servir de modelo para o galego, ou português da Galiza, mas reconheçamos o seu verdadeiro valor: O dia que um lisboeta se ponha a falar à galega, ou uma brasileiro à lisboeta, teremos o circo completo.

Gascon disse...

Para demonstrar que galego é português, senhor Barbosa, não adianta nada (tentar) falar o português europeu ou mesmo o brasileiro. Dessa maneira está-se a apagar a existência do galego, o qual existe, mesmo que seja em farrapos. Se queremos demonstrar que o galego é português, haverá que admitir que o português é uma língua mais aberta e variegada do que o seu dialeto padrão insinua. Uma língua em que a norma galega, oral e escrita, beba de mananciais próprios, enxebres ou rurais, e não imite o que se desenvolveu fora do território galego. Ainda não vim eu um de Castela a falar co sotaque andalus ou mexicano ou mesmo com o português. Mas parece que na vossa obsessão pola unidade da língua (como se ela dependesse de todos falar e escrever segundo um padrão universal!), cumpre ocultar as fezes galizianas e imitar o galego de Portugal, em vez de descastelanizar, restaurar e regenerar o próprio ...

luisesteves disse...

quem luta sempre alcança viva a galiza independente

José Manuel Barbosa disse...

Não há nada que demonstrar, senhor Gascon...Está todo mais do que demonstrado de todos os pontos de vistas. Demonstrem os que querem demonstrar que galego não é português e/ou que português não é galego....(sem dinheiros dos governos galegos)
Tenha bom dia.

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